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quarta-feira, janeiro 21, 2026

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Quase um “truque de mestre”

Marcos Machado

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Há um momento no filme “Truque de Mestre” (2013) em que Thaddeus Bradley, o “desmistificador profissional” vivido por Morgan Freeman, explica ao policial interpretado por Mark Ruffalo a regra fundamental da mágica: a mágica não acontece onde você está olhando; ela acontece onde você não olha. O truque depende, sempre, da sua distração. Pois bem: troca-se o palco por um estúdio de tevê, os ilusionistas pelos editores, o público pela opinião pública, e o ensinamento permanece intacto.

No jornalismo contemporâneo, especialmente no brasileiro, essa lógica se naturalizou a ponto de parecer parte da mobília. Quando um escândalo ameaça figuras poderosas ou compromete interesses sensíveis, faz-se o de sempre: lança-se um “balão de ensaio”. Sobe ao palco uma pauta repentina, um conflito improvisado, um estudo alarmista recém-descoberto, uma polêmica com cheiro de laboratório. A intenção é cristalina: mover o olhar do cidadão para onde não está o problema. Enquanto isso, o verdadeiro enredo se desenrola no escuro, longe da luz, exatamente como nos truques de mágica que encantam as plateias, mas que só funcionam porque ninguém está observando a mão certa.

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Você se lembra do “bebê reborn”? Pois, é, depois vieram as chupetas… E ninguém mais se lembra dessas distrações repentinas. Mas, aí, do nada, surge um escândalo de boleiro famoso, um adultério de alguém que não significa nada. Sempre há alguma coisa para atrair a atenção dos incautos. Nem preciso falar dos apelos para jogos de futebol, o esporte mais alienante do planeta.

A imprensa, que em teoria deveria desempenhar o papel de fiscalizadora, muitas vezes entra em cena como cúmplice involuntária, ou pior, voluntária. Manchetes sobre temas periféricos ganham destaque generoso; assuntos centrais, com potencial explosivo, são empurrados para o rodapé, tratados com a sutileza de um rodapé de contrato. O ciclo é previsível, quase coreografado: um escândalo real estoura, a imprensa percebe o risco, uma pauta emocional é empurrada para frente, o público morde a isca, e pronto: o escândalo inicial perde força, desidrata, evapora.

A mágica se completa, e o cidadão sai achando que viu tudo… quando, na verdade, não viu nada.

Há um detalhe: truques que funcionam demais começam a gerar desconfiança e a internet, ao que tudo indica, transformou o público de plateia passiva em audiência vigilante. Vídeos, documentos, investigações paralelas e relatos independentes surgem em velocidade que nenhuma redação tradicional consegue conter. O que antes seria acobertado com uma distração calculada agora vira alvo de escrutínio coletivo em horas. O palco mudou, e o mágico, acostumado ao aplauso automático, tem sido surpreendido no meio do número, com a pomba ainda debaixo da manga.

O resultado é visível: escândalos que antes desapareceriam sob o peso de narrativas oportunamente construídas reaparecem pelas frestas e aquilo que se pretendia vender como “verdade definitiva” se revela apenas mais uma tentativa de empurrar o olhar do cidadão para longe daquilo que realmente importa. Não é mais truque de mestre; é truque de aprendiz. Ou, para ser menos generoso, truque de bufão.

O jornalismo entra em decadência quando troca o compromisso com a realidade pela arte da distração. A credibilidade se desfaz quando o público percebe que, enquanto olha para a manchete do dia, a história real se desenrola fora de cena, e geralmente no sentido oposto ao que está sendo noticiado. Ao aderir ao espetáculo da fumaça, boa parte da mídia abriu mão da autoridade que um dia teve, e o público, que talvez fosse mais ingênuo no passado, abriu mão de acreditar.

A imprensa poderá, um dia, recuperar sua dignidade? Sim, quando parar de tentar ilusionismo e voltar ao que deveria ser sua função natural: acender as luzes do palco, e não manipular a fumaça. Até lá, cabe ao cidadão fazer aquilo que todo bom espectador crítico aprende cedo: olhar não para onde apontam, mas para onde evitam apontar. Afinal, você já sabe, a mágica nunca acontece onde querem que você olhe.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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