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quarta-feira, abril 29, 2026

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Cada um escreva como quiser

Marcos Machado

“A educação é o passaporte para o futuro, pois o amanhã pertence àqueles que se preparam para ele hoje.” A frase de Malcolm X tem sido repetida à exaustão, mas raramente digerida. Não é um bordado para decorar sala de aula. É um aviso incômodo: há fronteiras entre o presente e o futuro, e nem todos passam. Só atravessa quem tem o documento certo, e a escola deveria ser quem o emite, mas o que fazer quando é justamente ela quem falsifica ou nega esse passaporte?

A história de Malcolm X expõe essa contradição. Nascido em um contexto de racismo institucionalizado, o jovem Malcolm Little ouviu da própria escola que ser advogado não era uma “meta realista” para um negro. Seu futuro foi abortado ali mesmo, numa sala de aula. Só mais tarde, preso, ele reinventaria seu destino pela via mais improvável: os livros. Leu obsessivamente e se reescreveu pela linguagem.

Hoje, quem diz aos jovens que não vale a pena sonhar alto? A escola que uniformiza, que adestra com redações de “introdução-desenvolvimento-conclusão”, que transforma a literatura em código indecifrável para vestibulares, não está ensinando: está domesticando. Está substituindo o passaporte pela carteirinha do subemprego.

É nesse ponto que o discurso do “cada um escreve como quiser” aparece como o canto sedutor do descompromisso. Travestido de liberdade de expressão, o argumento esconde um crime contra a educação. Não é libertador desconsiderar a norma culta: é negligente. É abandonar o aluno diante das exigências do mundo, é dizer que ele pode cruzar fronteiras com um documento mal preenchido e depois culpá-lo por ser barrado.

Linguagem é poder. Malcolm X entendeu isso quando trocou a algema pela palavra. Entendeu que dominar a linguagem é mais do que falar bonito: é saber interpretar a realidade e resistir às manipulações. A educação que ensina isso prepara cidadãos. A que renuncia a isso fabrica excluídos.

A defesa da norma culta não é elitismo, é justiça. É garantir ao estudante de periferia o mesmo vocabulário que um filho da elite usa para passar em concursos, defender teses e fazer política. Dizer que “cada um escreve como quiser” pode soar democrático, mas é, muitas vezes, um acinte àqueles que mais precisam da educação como meio de ascensão.

A escola precisa decidir: vai continuar rasgando passaportes com fórmulas prontas e concessões populistas, ou vai ensinar seus alunos a escrevê-los com as próprias mãos?

Malcolm X escolheu a palavra como arma e armadura. Mostrou que, sim, a linguagem pode libertar, mas, para isso, é preciso levá-la a sério. Ensinar com rigor, sem abrir mão do pensamento crítico. Não se trata de impor regras cegamente, mas de mostrar que dominá-las é ter autonomia.

Num país onde a língua vai sendo assassinada em nome de uma suposta liberdade, lembrar de Malcolm é lembrar que educação de verdade não é concessão: é conquista, e toda conquista começa com um verbo bem conjugado.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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