
A população em situação de rua no Brasil cresce em ritmo alarmante, em um contraste que expõe o abismo entre o discurso oficial e a realidade das cidades. De acordo com dados do Cadastro Único (CadÚnico), em 2018 havia pouco mais de 116 mil pessoas vivendo nas ruas. Em 2024, esse número saltou para 308 mil, quase três vezes mais. No início de 2025, já ultrapassava 335 mil. A escalada não é um detalhe estatístico: representa milhares de famílias desfeitas, pessoas privadas de moradia e dignidade, enquanto o poder público insiste em relativizar o problema ou diluí-lo em promessas de programas sociais de longo prazo.
O governo tem reforçado em discursos que a proteção social está em expansão e que novas políticas habitacionais e de transferência de renda vão “reverter o quadro”. No entanto, os números mostram o oposto. Só de dezembro de 2023 a dezembro de 2024, o crescimento foi de 25%, uma explosão em apenas doze meses. Enquanto isso, prefeitos relatam falta de recursos para abrigos, e estados enfrentam limitações para oferecer serviços básicos. A realidade é que o aumento da população de rua reflete uma soma de fatores: inflação persistente, precarização do trabalho, analfabetismo funcional e desigualdade estrutural; problemas que não têm sido enfrentados com a urgência necessária.
O contraste é gritante: de um lado, pronunciamentos que exaltam programas de assistência; de outro, a multiplicação visível de barracas e colchões improvisados sob viadutos e calçadas. A discrepância sugere que as políticas públicas, quando existem, não têm sido suficientes para conter o avanço da exclusão social. Em vez de um “problema pontual” ou “residual”, como algumas autoridades ainda preferem classificar, trata-se de uma crise social em plena expansão, cujo enfrentamento exige mais do que narrativas de ocasião: pede ações concretas e imediatas.
Razões do colapso social
A exclusão econômica, ou desemprego, é apontada como principal causa da migração para as ruas. A insegurança alimentar, o desemprego persistente, a informalidade e o déficit habitacional formam a base do problema. O Ipea destaca que 54% das pessoas em situação de rua reportaram motivações de ordem econômica.

Atrelado ao problema do desemprego, vem a ruptura de vínculos sociais, incluindo os conflitos familiares ou com parceiros, causa mencionada por 47,3% como razão para perderem a moradia. Problemas de saúde, especialmente a mental, foram mencionados por 32,5%, enquanto o uso abusivo de álcool e outras drogas atingiu 30,4%.
Esses elementos se entrelaçam e revelam que o avanço da população de rua não é um acaso, mas resultado de décadas de precarização, desintegração de laços sociais e ausência de políticas urbanas eficazes, falhas no aprendizado e inexistência de políticas de alfabetização plena e formação qualificada de mão de obra.
A miséria avança a galope no Brasil, apesar dos discursos otimistas e dos gastos fora de controle do governo.


