Varejo só reflete crise que consome consumidores e empresas

O Brasil vive hoje um momento de aperto severo, e as palavras de líderes do varejo, segundo os próprios representantes da categoria, soam como alerta: “o dinheiro acabou”. Essa constatação, longe de ser mera hipérbole, traduz um quadro real de famílias e empresas pressionadas por dívidas, juros altos, desemprego, renda estagnada e uma carga tributária recorde. Os dados mais recentes confirmam: a inadimplência atinge níveis históricos e o endividamento de empresas e consumidores derruba o consumo e corrói o tecido do comércio.
Segundo levantamento da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e do SPC Brasil, em junho de 2025 havia cerca de 71,28 milhões de brasileiros adultos negativados, o equivalente a 42,9% da população adulta do país. Esse patamar supera os 69,66 milhões registrados em março e o de 70,29 milhões em abril, confirmando uma escalada crescente.
A dívida média por consumidor negativado em junho atingiu R$ 4.786,83, com, em média, 2,21 credores por pessoa. A crise de crédito se reflete especialmente em atrasos de cartão, empréstimos e cheque, fatores que drenam renda disponível e soterram o consumo.
Do lado empresarial, os indicadores também são alarmantes. A Serasa Experian registrou recorde histórico em 2025: em julho, cerca de oito milhões de CNPJs estavam negativados, com as micro, pequenas e médias empresas sendo as mais afetadas.
As dívidas de empresas somaram R$ 193,4 bilhões, com um tíquete médio de R$ 3.302,30 por empresa inadimplente e uma média de 7,3 contas em atraso por CNPJ.
Retração imediata
Parte central dessa crise está no custo elevado do crédito. Com a taxa básica de juros (Selic) elevada, entre os mais altos patamares dos últimos 20 anos, o crédito ficou mais caro, onerando empréstimos para famílias e empresas.
Para empresas que dependem de capital de giro ou crédito para manter estoques, a dificuldade de honrar dívidas e compromissos financeiros aumentou rapidamente.
Entre consumidores, o impacto recai diretamente no orçamento doméstico, com menor capacidade de consumo, fim de parcelamentos e queda nas compras de bens duráveis, peças fundamentais para o varejo.
Tributos no topo
A pressão sobre o varejo e sobre o bolso das famílias não se deve apenas à inadimplência e aos juros. A carga tributária no Brasil alcançou 32,32% do PIB em 2024, segundo boletim divulgado pelo Tesouro Nacional.
Esse percentual elevado onera o custo de bens e serviços, aumentando preços e reduzindo o poder de compra, especialmente das camadas de menor renda, que acabam sendo as mais atingidas pelo aumento no custo de vida.
Para comerciantes, a alta tributação encarece insumos e operações, comprimindo margens de lucro, num momento em que vendas caem e a inadimplência cresce. O resultado é um ambiente hostil, especialmente para pequenos e médios negócios, com risco real de falências e demissões.
Risco de colapso

Esse conjunto, de inadimplência em massa, crédito caro, renda familiar pressionada e carga tributária elevada, forma uma “tempestade perfeita” para o comércio varejista e para a economia em geral.
Para as famílias: queda no consumo, retração nos gastos com bens e serviços, comprometimento da renda familiar e maior dificuldade para honrar dívidas, o que aprofunda o ciclo de restrição financeira.
Para as empresas: falta de capital de giro, dificuldade em manter estoque, incapacidade de honrar contas e fornecedores, risco de falência ou corte de pessoal.
Para o mercado e a economia: retração do varejo, desemprego, queda na arrecadação (quando vendas caem), aumento da desigualdade e menor liquidez econômica.
Se não houver algum tipo de intervenção, seja por políticas públicas, estímulos ao crédito ou renegociações, há o risco de que o aperto se transforme em crise generalizada no varejo.
“O dinheiro acabou”
Quando líderes do varejo dizem que “o dinheiro acabou”, não é uma metáfora, é um retrato de uma economia onde famílias e empresas já consumiram seu limite de endividamento, onde o crédito se tornou caro demais, e onde a carga tributária corrói qualquer sobra de renda.
A combinação de inadimplência recorde, juros nas alturas, retração do crédito e tributação elevada expõe um Brasil fragilizado. Se a conjuntura não mudar, as consequências vão muito além do comércio: pode afetar o emprego, o consumo, a produção e, em última instância, o futuro de milhões de brasileiros.


