Marcos Machado

Fosse o ensino algo que se confunde com o professor, o mestre que sustenta a sala de aula, teríamos motivos de sobra para choro, não para festa. A mitologia do caos cultuado no Brasil escamoteia que o professor é agente e não causa, submetido a políticas, decretos e ambições de tecnocratas. Se o ensino fosse esse ente de responsabilidade direta da sociedade, os dados derrubariam qualquer romantismo. Há retrocessos e crises estruturais tão graves que celebrá-los seria um desserviço à cidadania.
As estatísticas falam por si: segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf 2024), 29 % dos brasileiros de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais, ou seja, não dominam leitura, compreensão e cálculos mínimos mesmo sabendo decodificar palavras.
Entre os jovens de 15 a 29 anos, o índice subiu de 14 % (em 2018) para 16 % em 2024.
A taxa de analfabetismo “clássico” também persiste, embora em níveis inferiores, e chega a 5,3 % da população com 15 anos ou mais em 2024, ou cerca de 9,1 milhões de pessoas.
Há desigualdades gritantes: no Nordeste, a taxa de analfabetismo ainda alcança 11,7 %, contra 2,9 % no Sudeste. Entre os mais idosos (60 anos ou mais), cerca de 14,9 %, ou mais de 5,1 milhões de pessoas, ainda não sabem ler ou escrever. Se “plena alfabetização” fosse definida como aptidão para uso autônomo e reflexivo da leitura, da escrita e do raciocínio cotidiano, estaríamos muito distantes desse cenário. Os números mostram que apenas 10 % da população brasileira de 15 a 64 anos atinge nível “proficiente” de letramento no Inaf.
No âmbito escolar, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) dá sinais de estagnação: nos anos iniciais do ensino fundamental, a nota foi 6; nos anos finais, 5; e no ensino médio, apenas 4,3.
Isso indica que o aprendizado efetivo não acompanha a expansão do acesso, e muitos estudantes chegam ao fim da escolaridade obrigatória com lacunas profundas.
Outro dado perturbador: em 2023, apenas 56 % das crianças das redes públicas alcançaram o patamar de alfabetização no 2º ano do ensino fundamental, ainda abaixo da meta de 60 %. Em 2024, esse índice subiu para 59,2 %, um avanço mínimo que ainda não garante qualidade.

Esses números compõem um cenário frágil: muitos saem da escola sabendo ler e escrever, mas não conseguem interpretar um texto, entender instruções mínimas, resolver contas simples ou exercer plenamente a cidadania. Isso é analfabetismo funcional pura e dura, um legado silencioso que corrói a sociedade.
Como tudo começou: No dia 15 de outubro de 1827…
No dia 15 de outubro de 1827, Pedro I, Imperador do Brasil, assinou um Decreto Imperial que estabelecia o “Ensino Elementar” no Brasil. A proposta era ambiciosa: criar em “todas as cidades, vilas e lugarejos” escolas de primeiras letras. O decreto definiu não só quem deveria ser alfabetizado, mas também matérias básicas, critérios de contratação de professores e até o salário docente. Uma ideia inovadora para o Brasil do século XIX — só que, na prática, jamais foi cumprida de modo satisfatório.
Foi em 1947, que se instituiu oficialmente um dia dedicado aos professores. Em São Paulo, no Ginásio Caetano de Campos (“Caetaninho”), quatro mestres organizaram um “Dia do Professor” para discutir rumos do ensino, trocas com pais e evitar o desgaste da rotina. Na sugestão do professor Salomão Becker, o dia seria 15 de outubro, data tradicional em sua cidade natal, Piracicaba. A mobilização, com apoio de professores Alfredo Gomes, Antônio Pereira e Claudino Busko, ganhou força; no ano seguinte, escolas de São Paulo já celebravam e, em 1963, o feriado escolar foi decretado nacionalmente (Decreto 52.682).
Esse percurso mostra que nossa relação com a educação foi construída mais por simbolismo do que por concretude. Comemorar o “caos educacional” é um expediente que dissimula a fragilidade profunda de um sistema que jamais esteve plenamente estabelecido e que hoje entrega resultados tão claudicantes.
Se o ensino fosse apenas celebração ou retórica, estaríamos salvaguardados, mas o ensino é substantivo, exige método, recursos, estrutura e comprometimento. Os dados revelam que, nessa seara, vivemos um luto coletivo disfarçado de festa. É urgente abandonar a mitologia do elogio ao caos e fazer da educação uma dívida inadiável com o futuro. Se não fizermos isso, seguiremos regurgitando estatísticas estarrecedoras enquanto nos engalfinhamos em discursos vazios.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


