Marcos Machado

A cena é uma das mais marcantes do filme francês Intocáveis (Les Intouchables, 2011). Philippe (interpretado por François Cluzet), um aristocrata tetraplégico, entrevista candidatos ao cargo de cuidador. Driss (vivido por Omar Sy), um homem negro das periferias, surge sem qualquer preparo técnico, sem referências e sem interesse real na vaga. Driss quer apenas a assinatura que comprova que procurou emprego para continuar recebendo o benefício social. É nesse momento que a ironia explode em tela. Philippe, cansado da compaixão hipócrita e da mediocridade burocrática, resolve contratá-lo justamente por isso: porque Driss é o único que não o trata como um coitado.
A frase que poderia muito bem sair de cena que se segue ao ambiente, quando Driss retorna à casa para pegar o “papel assinado”, adaptada à nossa realidade, pode ocasionar certo desconforto aos mais sensíveis e ideologicamente vulneráveis: “Não te incomoda viver de benefícios? Não te incomoda viver à custa de quem trabalha?” (versão adaptada)
No filme, Driss, com o tempo, descobre o valor do trabalho, da responsabilidade e da dignidade. No Brasil, no entanto, milhões permanecem presos à dependência que o governo vende como “proteção social”. O que deveria ser uma ponte virou moradia permanente. Enquanto isso, quem trabalha, quem produz, quem paga impostos, sustenta a engrenagem de um sistema que confunde assistência com acomodação.

O problema não é o benefício em si. Ele é necessário e justo em uma sociedade que deve amparar os vulneráveis. O problema é o vício social que ele cria quando deixa de ser temporário e se transforma em estilo de vida. O governo não produz riqueza; ele apenas administra o que arrecada. Cada real distribuído em programas sociais vem do suor de alguém. O governo nada mais é do que o intermediário entre o bolso do trabalhador e a mão estendida de quem deixou de querer se levantar para granjear o pão com o suor do próprio trabalho.
Em Intocáveis, o encontro entre Philippe e Driss representa a superação da autocomiseração. Philippe, embora rico, recusa o papel de vítima. Driss, embora pobre, aprende a se libertar da inércia. Ambos crescem. No Brasil, o roteiro é outro: o governo alimenta o papel de vítima, convence multidões de que a dependência é direito adquirido, e cria gerações que jamais conhecerão o orgulho de conquistar algo por mérito próprio.
O governo se proclama benfeitor, mas distribui o dinheiro que não tem, retirando de quem produz para manter uma massa que apenas sobrevive. O “benefício” se transforma em prisão social, e o diálogo entre Philippe e Driss escancara essa ironia: um homem que vive de rendas e outro que vive de subsídios, ambos sem controle sobre o próprio destino.
A perpetuação de benefícios sociais sem prazo definido é uma aberração econômica e moral. Ela sustenta a miséria, mas não a resolve. Mantém corpos vivos, mas mentes anestesiadas. A falsa bondade estatal transforma cidadãos em súditos, em dependentes dóceis de um poder que os usa como massa eleitoral.
É preciso reafirmar um princípio básico de justiça social: benefício deve ser temporário, pedagógico e libertador, jamais vitalício, salvo nos casos em que a invalidez ou a condição humana impossibilitem a autossuficiência. Indolência não é doença, e a preguiça social não pode ser tratada com subsídios públicos. O verdadeiro programa de inclusão é o trabalho, não a esmola maquiada de política pública.
Enquanto não se compreender isso, continuaremos financiando uma legião de “Driss” que nunca encontrarão um “Philippe” capaz de lhes mostrar o valor de se levantar da cadeira, não por pena, mas por dignidade e responsabilidade.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


