Marcos Machado

Deus é paciente e misericordioso, mas também é fogo consumidor, e o fogo da justiça não tardará a queimar os que traíram sua vocação. “Ai de ti, pastor que dispersa e destrói as ovelhas do Meu pasto, diz o Senhor” (Jeremias 23:1). Haverá mais perdão para Sodoma e Gomorra do que para os que, em nome da prudência ou da neutralidade, escolheram o silêncio diante da iniquidade.
Os púlpitos se tornaram palanques da omissão. Líderes religiosos que um dia ergueram a bandeira da verdade e da moral cristã hoje se escondem atrás de discursos mornos, tentando agradar a todos e não ferir sensibilidades.
A advertência de Dante Alighieri, em A Divina Comédia, reverbera como profecia: o inferno tem lugar especial reservado para os omissos, para os covardes que se abstêm de tomar posição diante do mal.
Não há mais margem para ambiguidades. Não há mais espaço para tergiversação. Não há mais divergência política. A divergência agora é moral, é ética, é cristã.
O atual cenário político e moral do país revela uma escalada de injustiças, censuras, perseguições e inversões de valores que qualquer cristão minimamente atento reconhece como sintomas de tirania. A opressão cresce disfarçada de benevolência estatal, e o mal se mascara de compaixão social. Mesmo assim, muitos pastores e líderes preferem permanecer calados como se Deus tivesse ordenado neutralidade diante da injustiça. Esquecem-se de que o silêncio dos bons é o maior aliado do mal.

John Wesley, fundador do metodismo, não esperou a conveniência das autoridades nem o aplauso das multidões. Foi às ruas, pregou entre os marginalizados, deu dignidade a mendigos e operários, e enfrentou o poder político e religioso de seu tempo. Ele não pregava uma fé de tapinhas nas costas, mas de confronto moral e espiritual com as trevas que assolavam sua geração. O mesmo se pode dizer dos reformadores, dos mártires e dos profetas que, movidos pela fé, ousaram contrariar impérios e sinédrios.
Hoje, a covardia veste batina e terno. Igrejas outrora firmes (Católica, Batista, Metodista, Assembleia de Deus e tantas outras) veem parte de suas lideranças diluindo a doutrina, amaciando a mensagem, transformando o altar em espaço de diplomacia ideológica, enquanto o mundo se decompõe em permissividade e mentiras. A palavra profética é substituída por eufemismos e o zelo pela verdade cede lugar ao medo da desaprovação social.
Deus não é neutro.
O Cristo que perdoa é o mesmo que expulsa os vendilhões do templo. O Cordeiro é também o Leão de Judá.
Aqueles que se dizem seus servos deveriam lembrar que, quando o mal se impõe, o silêncio é cumplicidade. “Aquele que sabe fazer o bem e não o faz comete pecado” (Tiago 4:17).
A omissão espiritual diante de regimes e ideias que corrompem a liberdade, a família, a moral e a fé é mais do que fraqueza: é traição.
Toda traição cobra seu preço.
Não tardará o dia em que muitos descobrirão, tarde demais, que o respeito às “divergências políticas” foi apenas o pretexto usado para justificar o medo.
Haverá choro e ranger de dentes, não apenas entre os ímpios declarados, mas também entre os que, tendo conhecido a verdade, preferiram calá-la. Porque de todo servo se exigirá fidelidade, e de todo pastor se cobrará o sangue das ovelhas que permitiu que se perdessem.
O fogo consumidor não poupa templos nem tradições. Que os pastores despertem, que os profetas voltem a falar, antes que o próprio Deus retire de suas mãos o candeeiro e o entregue aos que ainda têm coragem de defender a verdade. Porque o Reino não se edifica sobre a covardia, mas sobre a justiça e a justiça do Senhor virá, cedo ou tarde, como um fogo devorador.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade
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