
Marcos Machado
Há quase meio século, Pantaleão Pereira Peixoto desfilava na televisão brasileira como o epicentro da arte da mistificação. Interpretado pelo inigualável Chico Anysio, Pantaleão era um mentiroso profissional com diploma informal em estatística fantástica: inventava números, gráficos invisíveis e anedotas dignas de um instituto de pesquisa subterrâneo. A cada frase, apresentava um dado novo, inflado, manipulado ou simplesmente inexistente. Um sujeito especializado em transformar o improvável em verdade oficial.
Ao lado dele, como fiel escudeira, aparecia a icônica Terta, interpretada pela a atriz Suely May, cuja função era simples e definitiva: confirmar tudo. “É mentira, Terta?” perguntava Pantaleão, num refrão que o país inteiro conhecia. E ela, convicta, indiferente ao absurdo, devolvia o lacônico e oficial “é verdade!”.
Fechando o trio, Pedro Bó, vivido por Joe Lester, completava o quadro como o retrato do sujeito de compreensão retardatária: entendia tarde, mal ou nunca, mas estava sempre pronto para dar o aval definitivo, com perguntas fora de contexto ou com silêncios que diziam mais que os discursos.
Chico Anysio sabia o que fazia. O Brasil dos anos 1980 já exibia Pantaleões, Tertas e Pedros Bós em carne, osso e voto. Mas como bom humorista, Chico preferiu empacotar o fenômeno num riso inteligente. Mal sabia ele que sua obra envelheceria como profecia, jamais como caricatura.
Se alguém duvida, basta olhar para o Brasil contemporâneo, onde um moderno Pantaleão atravessa o noticiário distribuindo estatísticas mágicas, gráficos que se movem sozinhos e projeções econômicas cujos autores renunciam publicamente. Cada dado vem acompanhado de sua Terta, hoje rebatizada de “assessoria técnica”, “base aliada”, “influência digital” ou “militância orgânica”, sempre pronta para confirmar o que quer que seja. Não importa se o dado desafia a lógica, o raciocínio, ou o bom senso: “é verdade!”.

Os Pedros Bós não ficaram para trás. Eles se multiplicaram. Proliferaram. Agora vestem camisetas, carregam cartazes, vociferam slogans e participam do debate público sem jamais ter descoberto o assunto. São personagens de compreensão tardia, mas “opinião” imediata. Alguns chegam gritando o famoso “sem anestesia”; outros trocam apoio por um pão com mortadela, por 30 reais ou, o que é mais grave, por absolutamente nada, apenas pela certeza de que incentivam a causa certa, mesmo desconhecendo qual seja ela.
Se Chico estivesse vivo, talvez tivesse dificuldade em escolher um só Pantaleão para retratar. O leque é amplo: do político que reinventa a economia e encontra superávits em meio a déficits, ao que anuncia obras prontas sem obra, ao que registra índices de criminalidade que nem os criminosos reconhecem. É mentira, Terta? É verdade!, responde ela, e assim se governa.
O Brasil segue produzindo seus personagens enquanto repete a fábula de que qualquer semelhança é mera coincidência. Por pudor, ética ou conveniência, poucos assumem que o humor envelheceu como reflexo social. Chico, visionário, apenas catalogou tipos humanos que resistem às décadas e aos regimes.
E afinal, perguntaria o moderno Pantaleão, de microfone em punho e power point à mão: “é mentira, Terta?”. No que a plateia, já acostumada ao espetáculo, responde em coro: “é verdade!”. Enquanto isso, os Pedros Bós seguem participando da trama, sem saber onde estão, para onde vão, ou mesmo quem exatamente são, mas convictos de que pertencem, e isso basta ao enredo.
No Brasil, mais do que nunca, a política deixou de imitar a arte. Tornou-se ela própria o quadro do Chico. E quem quiser que acredite nas estatísticas, nas narrativas e nos causos. Porque, para os Pedros Bós, nem é preciso perguntar; e para as Tertas, a resposta está sempre pronta. É verdade!
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade
Qualquer semelhança…


