As vendas do comércio brasileiro praticamente estacionaram em junho, apesar de o calendário oferecer ao consumidor alguns dos tradicionais empurrões para o consumo, como o dia dos namorados e as festas juninas. O avanço foi de apenas 0,5% na comparação com maio, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada nesta quinta-feira (13) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
É o tipo de número que, dependendo do ângulo escolhido, pode ser apresentado como sinal de recuperação. Meio por cento, afinal, é crescimento. No supermercado, porém, meio por cento não enche carrinho. No bolso, tampouco paga a conta. E, para quem vive de salário e precisa escolher cuidadosamente o que entra ou não entra em casa, a estatística parece menos uma retomada econômica e mais uma demonstração de que o consumo brasileiro está andando com o freio de mão puxado.
A comparação com os meses anteriores ajuda a desmontar o entusiasmo. Em abril, as vendas do varejo haviam recuado 1,5%, ou seja, venda negativa. Junho, portanto, não trouxe exatamente uma arrancada, mas uma tentativa modesta de recuperar parte do terreno perdido. O resultado está longe de caracterizar uma economia em plena aceleração.
Dos oito grupos de atividades pesquisados pelo IBGE, apenas metade apresentou crescimento. A outra metade terminou junho no vermelho, justamente em segmentos que ajudam a revelar o comportamento cotidiano das famílias.
O volume de vendas de combustíveis e lubrificantes caiu 1,7%. Tecidos, vestuário e calçados recuaram 2,6%. Livros, jornais, revistas e papelaria tiveram uma queda ainda mais expressiva, de 9,9%. Equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação registraram retração de 1,3%.
No comércio varejista ampliado, que inclui também veículos, motocicletas, partes e peças, material de construção e produtos alimentícios, bebidas e fumo, o resultado foi ainda mais desanimador: queda de 1% em junho.
Ou seja, quando a fotografia do comércio é ampliada, desaparece até mesmo o modesto 0,5% que permite discursos otimistas.
Economia real não lê discurso oficial
A sequência de indicadores divulgados pelo próprio IBGE também recomenda cautela antes de qualquer comemoração. Nos últimos dias, o instituto revelou que a produção industrial caiu 1,8% de maio para junho.
Agora, o comércio aparece praticamente parado.
É difícil encontrar uma economia vigorosa quando a indústria perde produção e o comércio perde fôlego. Mas a vantagem das estatísticas oficiais é justamente essa: elas não precisam participar da solenidade dos discursos. Não têm compromisso com o otimismo de ocasião. Apenas mostram o que aconteceu.
A Pesquisa Mensal de Comércio é a terceira de uma sequência de três levantamentos conjunturais divulgados mensalmente pelo IBGE. Os números da indústria, do comércio e de outros indicadores permitem observar, com algum distanciamento da propaganda política, o comportamento da atividade econômica.
E o conjunto não parece particularmente festivo.
O problema é que, no Brasil, crescimento estatístico passou a ser tratado quase como sinônimo de prosperidade. Se a economia cresce 0,5%, comemora-se o crescimento. Se cai 1%, procura-se alguma explicação técnica. Se recupera uma fração da perda anterior, transforma-se a recuperação parcial em prova de sucesso.
É uma espécie de matemática política em que o importante não é apenas o resultado, mas a maneira como ele será anunciado.
Para o consumidor, entretanto, a conta é mais simples. Se o preço sobe, pesa. Se a renda não acompanha, aperta. Se o crédito fica caro, parcela-se. Se a dívida aumenta, corta-se o consumo. E quando o dinheiro acaba antes do fim do mês, não há discurso oficial capaz de transformá-lo em dinheiro disponível.
Dia dos Namorados não fez milagre
Junho costuma oferecer ao comércio uma combinação relativamente favorável. Há o Dia dos Namorados, uma das principais datas comerciais do primeiro semestre, além das festas juninas, que movimentam alimentação, vestuário, transporte, bares, restaurantes e outros segmentos.
Mesmo assim, o varejo avançou apenas 0,5%.
O resultado sugere que as datas comemorativas já não conseguem produzir o mesmo efeito quando o consumidor está pressionado pelo orçamento. Afinal, não basta haver uma data para comprar. É preciso haver dinheiro para comprar.
O romantismo pode até recomendar flores, presentes e jantar. O cartão de crédito, entretanto, costuma lembrar que o amor também tem limite.
E o limite, para uma parcela expressiva das famílias, já está perigosamente próximo.
O consumidor faz contas
A fraqueza do varejo também precisa ser observada em um contexto de juros elevados, endividamento das famílias e dificuldade de recomposição do orçamento doméstico. Quando boa parte da renda já está comprometida com despesas essenciais e dívidas acumuladas, o consumo deixa de ser uma questão de vontade e passa a ser uma questão de possibilidade.
É por isso que uma alta de 0,5% merece menos comemoração e mais investigação.
Quem está comprando? O que está comprando? Quanto está pagando? E, principalmente, como está pagando?
Porque existe uma diferença enorme entre uma economia em que as famílias consomem porque sua renda aumentou e outra em que elas mantêm algum consumo recorrendo ao crédito, parcelamento ou redução da poupança.
No segundo caso, a vitrine pode até continuar acesa, mas a economia doméstica permanece no escuro.
O Brasil do PIB e o do carrinho
Há ainda uma distância cada vez mais evidente entre a linguagem dos indicadores macroeconômicos e a percepção de quem enfrenta as despesas do cotidiano.
No discurso oficial, pequenos avanços podem ser apresentados como sinais de resiliência. Na vida real, o consumidor observa o preço dos alimentos, da gasolina, do aluguel, da energia, das mensalidades e das prestações. Não precisa de uma planilha sofisticada para saber se está melhor ou pior. Basta conferir quanto sobra depois de pagar as contas.
É nesse ponto que o otimismo governamental frequentemente encontra seu adversário mais incômodo: a realidade.
A estatística pode registrar crescimento de 0,5%. O cidadão pode registrar que não conseguiu comprar o que pretendia.
Uma economia pode apresentar algum crescimento e, simultaneamente, produzir sensação de aperto para grande parte da população. O problema surge quando o primeiro dado é utilizado para negar o segundo.
Meio por cento não é retomada
O comércio brasileiro não entrou em colapso em junho. Isso é verdade. Mas também não disparou.
Crescer 0,5% depois de uma queda de 1,5% é um resultado que exige menos fogos de artifício e mais cautela. Especialmente quando, no mesmo período, a indústria recuou 1,8% e o varejo ampliado caiu 1%.
Transformar esse cenário em demonstração exuberante de recuperação econômica seria, no mínimo, um exercício criativo de interpretação.
Enquanto o governo procura motivos para celebrar, o consumidor continua procurando maneiras de fechar o mês. E talvez essa seja a melhor síntese dos números de junho: o comércio não parou completamente, mas também não avançou o suficiente para convencer quem está diante do caixa.


