Marcos Machado

O combate ao analfabetismo é um daqueles temas em que o discurso político costuma falar mais alto do que a realidade. Dados são usados como medalhas de propaganda, mas, ao olhar de perto, o que aparece é uma sucessão de estatísticas selecionadas a dedo para sustentar narrativas convenientes. O Chile, por exemplo, é frequentemente citado como caso de sucesso, com seus 4% de analfabetismo funcional segundo números oficiais. No entanto, o Programa para Avaliação Internacional de Competências de Adultos (PIAAC/OCDE, 2011–2012) mostrou que 58% da população de 16 a 65 anos estava no nível mais baixo de proficiência em leitura. O índice em si não combina com a retórica otimista: não se trata de um país plenamente alfabetizado, mas de uma vitrine arrumada para exportação.
A Polônia segue outro caminho, mais árduo, mas transparente. A redução do analfabetismo absoluto, de um terço da população em 1921 para 1,2% em 1978, não foi milagre, mas resultado de décadas de política educacional consistente. O salto polonês mostra que progresso exige metas claras e estabilidade, não relatórios maquiados.
A Coreia do Sul, por sua vez, exibe um contraste ainda mais agudo. Em 1945, quase 80% da população era analfabeta. Menos de dez anos depois, o índice havia despencado, e hoje o país ostenta menos de 1% de analfabetismo absoluto. O segredo? Políticas severas, valorização real do magistério e foco inegociável no conteúdo. É o oposto do modelo que vende inclusão escolar com aprovação automática e diplomas sem substância.

No Brasil, a maquiagem estatística se tornou rotina. A universalização da matrícula no ensino fundamental é exibida como conquista histórica, mas esconde o dado de que milhões concluem a escolaridade sem compreender um texto simples ou resolver operações matemáticas básicas. Segundo o Inaf, 27% da população de 15 a 64 anos é analfabeta funcional; sete vezes mais que no Chile e vinte vezes mais que na Coreia do Sul.
O problema não é a falta de recursos, mas a opção por políticas fáceis e resultados de curto prazo. O país escolheu a pedagogia da ilusão: aprovações automáticas, critérios frouxos e metodologias que substituem conteúdo por frases de efeito e doutrinação ideológica. O resultado é um sistema que entrega diplomas como certificados de ficção, sustentado por governos que precisam mostrar progresso a qualquer custo e por uma sociedade que já se conformou com o fracasso escolar como se fosse destino.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


