Enquanto as regiões nobres de Brasília ganham brilho com obras vistosas e de necessidade duvidosa, as regiões administrativas periféricas seguem à margem, acumulando buracos, mato, lixo e abandono.
O contraste salta aos olhos de quem percorre a cidade: o Plano Piloto, os setores Sudoeste e Noroeste concentram intervenções milionárias, com reurbanização, drenagem e recapeamento, enquanto bairros populares como Taguatinga, Ceilândia e Samambaia, que concentram mais da metade da população da Capital do País, convivem com infraestrutura precária e obras inacabadas. A impressão generalizada é a de que o governo de Brasília, ou do Distrito Federal (GDF) como alguns preferem, governa para uma minoria privilegiada e, pior, com recursos públicos oriundos dos impostos que a maioria desassistida paga e que deveria ser mais bem atendida.
Levantamentos realizados a partir de dados da Secretaria de Obras e Infraestrutura publicados pela imprensa, uma vez que a secretaria se nega a fornecer dados, revelam que, apenas do fim de 2023 ao início de 2025, as regiões centrais receberam dezenas de milhões de reais em melhorias.
O Sudoeste, por exemplo, teve intervenções na faixa sul que somaram cerca de R$ 25 milhões. No Noroeste, a pavimentação e urbanização da Avenida W9 custaram mais R$ 3,3 milhões. No Plano Piloto, outras frentes de obras, como o projeto “Drenar DF”, focado nas faixas Norte 1 e 2, consumiram ao menos R$ 3 milhões. Sem contar reformas em vias internas, acessos a setores comerciais, requalificação de calçadas e novas ciclovias. O Parque da Cidade, um dos espaços mais valorizados da capital, também recebeu intervenções, embora os valores exatos não estejam claramente detalhados nos portais oficiais. Alias, esconder valores parece ser uma rotina.
Enquanto isso, nas franjas de Brasília, os chamados “investimentos” que nada mais são do que efetivamente gastos descontrolados do dinheiro do cidadão brasiliense, até existem, uma coisa aqui, outra ali, mais para marcar presença, mas seguem ritmo desigual. Taguatinga, uma das regiões administrativas (bairro) mais populosas da capital, é exemplo de obras importantes, e problemáticas.
A requalificação da Avenida Hélio Prates, que atravessa Ceilândia e Taguatinga, teve sua primeira fase iniciada em 2023, com um orçamento de R$ 20,2 milhões. A segunda fase, lançada em outubro do mesmo ano, recebeu outros R$ 49,5 milhões, é o que dizem. A promessa incluía novo pavimento, calçadas acessíveis, ciclovias e corredores exclusivos de ônibus. E ficou só na promessa. Em julho de 2024, o GDF rompeu o contrato com a empresa responsável por parte da obra, alegando atrasos, e decidiu concluir o serviço com equipes da Novacap e do DER.
O que fizeram, na realidade, foi apenas cobrir os buracos abertos e que dificultaram a vida dos moradores por longo período. O resultado da “obra”, não apresenta qualquer benefício, ao contrário, a retirada dos retornos da avenida obriga, agora, os motoristas a afunilarem o trânsito próximo ao cruzamento da Avenida Comercial. Além de o resultado de utilidade ter sido pífio, o pavimento aplicado já apresenta danos, pouco tempo depois de ter sido construído. O cumprimento da promessa permanece indefinido.
Moradores da região relatam frustração com o abandono, e comerciantes se queixam dos transtornos prolongados. “A obra começou, mas parece que foi largada pela metade. A gente vê o dinheiro passar, mas não vê o benefício chegar”, diz João Ferreira, comerciante da QNG, à margem da avenida.
Dentro do mesmo pacote, está a revitalização do Parque Ecológico do Cortado, um dos principais pontos verdes de Taguatinga. A obra teve início, com a construção de bacias de contenção de cheias e intervenção na erosão das margens, mas a urbanização interna, a criação de espelhos d’água e trilhas acessíveis seguem pendentes, sem data de entrega. A pista de corrida permanece interditada há anos.
O sentimento de desigualdade não é isolado. Nas redes sociais, especialmente em fóruns locais, moradores apontam a concentração de obras nas áreas mais ricas como reflexo de um governo que não conhece — ou ignora — as necessidades da periferia. “Tem obra em toda parte, viaduto novo, pista de caminhada… mas só no Plano. O transporte público tá abandonado, e na Ceilândia a gente vive desviando de buraco”, escreveu um usuário anônimo em uma postagem com dezenas de reações indignadas.
A sensação de abandono urbano vai além da percepção. Em várias regiões administrativas de Brasília, faltam calçadas, iluminação pública adequada, paradas de ônibus cobertas e serviços básicos de limpeza e conservação. Ruas esburacadas, terrenos tomados pelo mato e entulho acumulado são comuns em bairros como Estrutural, Itapoã, Riacho Fundo II e Recanto das Emas. Equipamentos públicos deteriorados, como praças e quadras esportivas, contrastam com o investimento pesado em acessibilidade e estética das áreas centrais.
Os números reforçam a impressão de desequilíbrio. Somando apenas as obras conhecidas nas regiões centrais (Sudoeste, Noroeste, Plano Piloto), os investimentos passam de R$ 30 milhões em pouco mais de um ano. Em Taguatinga e Ceilândia, os R$ 69 milhões torrados na Hélio Prates não apresentam resultado prático, esbarra em entraves contratuais e falta de continuidade. Ao mesmo tempo, bairros menores, igualmente carentes de infraestrutura, seguem invisíveis nas planilhas do governo elitista.
O GDF justifica os “investimentos”, que na realidade são gastos, como parte de um esforço de requalificação urbana que, segundo a Secretaria de Obras, visa melhorar a mobilidade, a acessibilidade e a qualidade de vida em todo o Distrito Federal. Mas os critérios de escolha das obras, seus cronogramas e prioridades são questionados por urbanistas e por parte da população. Sem planejamento transparente e com pouca participação popular, decisões técnicas acabam soando como favorecimento político ou eleitoral. As obras e benfeitorias se destinam aos amigos do círculo social.
A desigualdade de tratamento entre centro e periferia não é um problema novo, mas se aprofunda quando os recursos públicos são gastos de forma concentrada, beneficiando justamente quem menos precisa de assistência do Estado, abandonando que mais paga impostos para sustentar a máquina pública.
A capital federal, idealizada por dois comunistas declarados para ser símbolo de justiça e igualdade, corre o risco de se tornar um espelho da segregação, onde o dinheiro do contribuinte é usado para atender círculos fechados e os mais pobres ficam à margem, esperando por um futuro que nunca chega.
Se Brasília quer se afirmar como uma cidade para todos, é preciso romper o ciclo do favorecimento seletivo. Obras de alto impacto estético em áreas privilegiadas não podem servir de vitrine enquanto parte da população caminha na lama, tropeça no asfalto rachado, arrebenta a suspensão do carro em buracos que nunca são tapados, ou espera por um simples ponto de ônibus com cobertura. Afinal, um governo justo não é aquele que brilha no Plano Piloto, mas o que se faz presente onde a cidade mais precisa dele, e onde está a maioria da população.


