Sério que você acredita que a “queda” do desemprego resolveu o problema do mercado de trabalho brasileiro e que ela é real? E que o aperto econômico vivido pelas famílias não passa de uma “sensação”, como já chegou a sugerir a comentarista Miriam Leitão? Pois então convém avisar que, no mundo em que as pessoas vivem, onde elas precisam pagar supermercado, aluguel, energia, combustível e prestações, a economia parece ter combinado de não seguir o roteiro otimista de alguns analistas de televisão.
Uma pesquisa nacional da Genial/Quaest, divulgada em julho de 2026, oferece uma pequena dose de realidade. Para 68% dos entrevistados, o poder de compra diminuiu em relação ao ano anterior. Apenas 10% disseram que aumentou. Outros 21% afirmaram que permaneceu igual. No mercado de trabalho, 55% consideram que está mais difícil conseguir emprego do que em 2025. Apenas 36% avaliam que ficou mais fácil. E é claro, os otimistas não conseguem explicar o porquê.
Se isso for apenas uma “sensação”, trata-se de uma sensação bastante democrática: atinge mais de dois terços da população.
Há mais. Para 66% dos entrevistados, os preços dos alimentos nos supermercados aumentaram no último mês. Apenas 9% perceberam queda, sem mais explicações. Ou seja, enquanto parte do debate econômico se dedica a celebrar indicadores positivos, milhões de brasileiros fazem uma atividade muito mais objetiva: passam pelo caixa do supermercado. Ali, aparentemente, não existe assessor de comunicação capaz de convencer o preço do arroz de que ele está barato.
A mesma pesquisa mostra que 43% dos brasileiros avaliam que a economia piorou nos últimos 12 meses, enquanto somente 20% percebem melhora e, mais uma vez, sem qualquer justificativa plausível. É uma diferença grande demais para ser tratada simplesmente como desconhecimento ou alguma espécie de alucinação coletiva.
O problema é que existe uma diferença importante entre a estatística oficial do mercado de trabalho e aquilo que o trabalhador efetivamente experimenta. A taxa de desemprego do IBGE mede a população desocupada dentro da força de trabalho. Não mede, por si só, a qualidade da ocupação, o salário recebido, a estabilidade, a informalidade ou se aquela renda é suficiente para pagar as contas.
E é justamente aí que começa a confusão.
Segundo a PNAD Contínua, a taxa de informalidade chegou a 37,2% no trimestre encerrado em abril de 2026, o equivalente a 38,1 milhões de trabalhadores. São milhões de pessoas trabalhando sem carteira assinada ou em outras formas de ocupação informal.
Portanto, alguém pode estar oficialmente “ocupado” e, ainda assim, estar desempregado e viver em uma situação econômica extremamente precária. Pode ser motorista de aplicativo, entregador, vendedor ambulante, trabalhador por conta própria, diarista ou exercer outra atividade sem vínculo formal. A estatística registra a “ocupação”, não o emprego. A vida cobra renda e segurança. O brasileiro se vira como pode para comer, e a estatística se aproveita dele.
E não é preciso acusar o IBGE de manipulação para perceber essa diferença. A metodologia é técnica. O problema aparece quando determinados números são apresentados como se fossem um retrato completo do mercado de trabalho. Não são.
A própria PNAD considera como ocupada uma pessoa que trabalhou ao menos uma hora na semana de referência em atividade remunerada ou em determinadas situações de trabalho não remunerado. Isso não significa que toda pessoa classificada como ocupada esteja desfrutando de um emprego protegido e capaz de garantir uma vida digna.
É a velha diferença entre estar trabalhando ou apenas se virando.
Também existem os chamados desalentados. São pessoas que gostariam de trabalhar, mas desistiram de procurar emprego porque acreditam que não conseguirão uma vaga adequada. Como não estão procurando ativamente trabalho, não entram na população desocupada segundo os critérios da PNAD. No primeiro trimestre de 2026, o percentual de desalentados correspondia a 2,4% da força de trabalho ou desalentados.
O problema está na interpretação política do número: dizer simplesmente que o desemprego caiu não significa dizer que desapareceram as dificuldades de quem precisa trabalhar.
E há ainda a subutilização. No primeiro trimestre de 2026, a taxa composta de subutilização foi de 14,3%, muito acima da taxa de desocupação. Esse indicador incorpora, além dos desocupados, pessoas que trabalham menos horas do que gostariam e aquelas que estão na força de trabalho potencial.
Ou seja: a realidade do mercado de trabalho é bem maior do que a manchete “desemprego cai”.
Pior desde a pandemia
O desempenho do emprego formal também merece atenção. O Novo Caged registrou a criação de 921.645 vagas com carteira assinada no primeiro semestre de 2026. O número é positivo, evidentemente, mas foi indiscutivelmente inferior aos 1.222.591 postos criados no primeiro semestre de 2025.
Aqui está o detalhe que costuma desaparecer quando se comemora apenas o número absoluto: 921 mil vagas parecem muitas até serem comparadas.
Em junho de 2026, o estoque de empregos formais chegou a pouco mais de 48 milhões de vínculos. O salário médio real de admissão foi de R$ 2.404,34.
O trabalhador não precisa dominar econometria para perceber que seu salário compra menos.
O país da estatística
O Brasil chegou a uma situação curiosa: é possível estar conceitualmente empregado (e dentro no novo conceito adotado), mas continuar economicamente vulnerável; trabalhar todos os dias, mas não ter carteira assinada; aumentar a renda nominal e ainda assim perder poder de compra; encontrar uma ocupação e continuar procurando uma oportunidade melhor.
É por isso que a taxa de desemprego oficial, não a real, e isoladamente, não pode ser transformada em certificado de prosperidade nacional.
A informalidade de 37,2% significa que mais de um terço da população ocupada está em formas de trabalho que não oferecem necessariamente a mesma proteção do emprego formal.
Não se trata de um detalhe estatístico. Para quem está nessa situação, a diferença é bastante concreta. É a ausência de férias remuneradas, 13º salário, FGTS e seguro-desemprego, conforme o tipo de vínculo. Não é emprego, é viração!
Transformar a redução da chamada desocupação em prova de que o problema econômico desapareceu é outra história. Porque há uma pergunta que a estatística do desemprego não responde: quanto sobra no bolso de quem está teoricamente trabalhando?
E é justamente nessa pergunta que a pesquisa Genial/Quaest se torna incômoda. Se 68% dos brasileiros dizem que seu poder de compra diminuiu e 66% afirmam que os alimentos ficaram mais caros, talvez o problema não esteja na percepção do cidadão. Talvez esteja na distância entre os indicadores econômicos e aquilo que acontece no supermercado e na conta bancária.
No fim das contas, talvez seja mais confortável chamar de “sensação” aquilo que incomoda. Afinal, se o poder de compra caiu, os alimentos ficaram mais caros, a informalidade alcança 38 milhões de pessoas e a criação de empregos formais desacelerou, resta apenas uma explicação conveniente: o brasileiro deve estar sentindo coisas demais.
Quem sabe, na próxima pesquisa, descubram também que o supermercado ficou caro apenas por “sensação”, como explicou a Mirian Leitão.
O problema é que o caixa do supermercado não trabalha com sensação. Trabalha com dinheiro. E, nesse quesito, a estatística não paga a conta.


