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quarta-feira, novembro 4, 2026

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Economia sem rumo pode voltar ao passado

Marcos Machado

Hiperinflação, congelamento, desabastecimento, confisco do dinheiro do povo pelo governo. Essas tragédias nacionais que foram vividas no final dos anos 1980 não estão longe de se repetir. A proposta apresentada recentemente pelo economista André Lara Resende para a economia brasileira provocou forte reação negativa no mercado financeiro, acompanhada de queda expressiva da Bolsa de Valores e alta do dólar. A ideia central consiste em promover uma redução acelerada e escalonada da taxa Selic, até atingir aproximadamente 7,5% ao ano em 12 meses. Para conter a eventual pressão sobre o câmbio, Resende propõe utilizar parte das reservas internacionais do país.

Longe de teoria da conspiração é mera trapalhada fiscal induzida pela repetição. Se não deu certo antes, daria agora?

O economista, que participou da formulação do Plano Cruzado, em 1986, durante o governo José Sarney, que gerou desabastecimento e hiperinflação, apresentou suas ideias no manifesto intitulado Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos. Sua trajetória também é associada às controvérsias econômicas do período Collor, com o confisco da poupança, em 1990.

A tese de Lara Resende inverte o diagnóstico predominante entre economistas e agentes do mercado financeiro: o desequilíbrio das contas públicas brasileiras não seria provocado principalmente pelo crescimento das despesas primárias, mas pelo peso dos juros da dívida pública, agravado pela manutenção da Selic em patamares elevados.

O diagnóstico

Para facilitar o entendimento, imagine o governo como uma pessoa endividada no cartão de crédito. Na interpretação tradicional, essa pessoa gasta demais. Para equilibrar o orçamento, precisaria reduzir esses gastos e controlar suas dívidas.

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Na visão de Lara Resende o problema principal não estaria nas despesas cotidianas, mas nos juros cobrados pelo banco, que consumiriam parcela excessiva da renda e impediriam a recuperação financeira.

A partir desse diagnóstico, o economista apresenta três medidas principais.

A primeira é reduzir a Selic para aproximadamente 7,5% ao ano em um prazo de 12 meses, mantendo-a posteriormente em uma faixa de 3,5% a 5,5%.

A segunda é criar o Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), responsável por estabelecer metas fiscais e monetárias para um período de quatro a cinco anos. A proposta alteraria a atual estrutura de decisão sobre a política econômica, reduzindo a autonomia do Banco Central na definição dos juros.

A terceira consiste em utilizar parte das reservas internacionais, superiores a US$ 300 bilhões, para atuar no mercado cambial, comprando reais e tentando conter a desvalorização da moeda brasileira diante de resultante saída de capitais.

Segundo a estimativa defendida pelo economista, a redução dos juros poderia proporcionar uma economia equivalente a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) ao ano em despesas financeiras da dívida pública. O resultado, em sua avaliação, permitiria melhorar rapidamente as contas do governo.

A resistência

O mercado financeiro e boa parte dos economistas recebem a proposta com profundo ceticismo. O principal receio é que uma redução artificial dos juros, sem correspondência com as condições inflacionárias e fiscais do país, comprometa a credibilidade da política monetária.

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A experiência internacional oferece exemplos de riscos associados à interferência política na condução dos juros. Na Turquia, a insistência do governo em manter taxas artificialmente baixas, mesmo diante da inflação elevada, contribuiu para uma crise monetária que levou a inflação anual a aproximadamente 85% em 2022. No Brasil, a experiência de 2015 também permanece como referência dos efeitos de uma política econômica marcada por desequilíbrios e perda de confiança.

Outro risco apontado é a fuga de capitais. Se os juros brasileiros caírem abruptamente, sem que haja fundamentos econômicos que justifiquem a mudança, investidores poderão retirar recursos do país e direcioná-los a mercados considerados mais seguros, como o norte-americano. A consequência provável seria uma pressão adicional sobre o dólar.

A utilização das reservas internacionais também desperta preocupação. Elas representam uma proteção importante contra crises externas e períodos de instabilidade financeira. Empregá-las para sustentar artificialmente a cotação do real poderia reduzir essa capacidade de proteção, sobretudo se a saída de capitais persistisse por um período prolongado.

As consequências

No curto prazo, a adoção abrupta da proposta poderia provocar desvalorização do real, pressão sobre o dólar e desvalorização dos ativos negociados na B3, caso os investidores reagissem com uma retirada significativa de recursos. A alta cambial também poderia encarecer produtos importados e combustíveis, pressionando os preços.

No médio prazo, o risco seria a perda de confiança na política monetária e o descolamento das expectativas de inflação em relação às metas estabelecidas. Para tentar conter a pressão cambial, o governo poderia ser levado a consumir reservas internacionais em ritmo crescente, sem garantia de conseguir estabilizar a moeda.

No longo prazo, a combinação de inflação elevada com juros reais pressionados e retração dos investimentos poderia comprometer o crescimento econômico. O país correria o risco de enfrentar um quadro de estagflação, caracterizado pela combinação de inflação persistente e atividade econômica estagnada. (é o fenômeno econômico atípico que acontece quando um país vive estagnação econômica com nulo crescimento do PIB e aumento do desemprego, ao mesmo tempo em que enfrenta inflação alta e persistente)

Nesse cenário, o ajuste das contas públicas acabaria ocorrendo, em parte, pela corrosão inflacionária da renda. O resultado seria a perda de poder aquisitivo da população, que já está combalido, especialmente dos trabalhadores e aposentados, justamente os grupos com menor capacidade de proteção contra a desvalorização da moeda.

O caminho

Para a maioria dos analistas macroeconômicos, o caminho sustentável é praticamente o inverso. A recuperação da economia depende de uma política fiscal consistente, capaz de controlar o crescimento das despesas obrigatórias e estabelecer uma trajetória confiável para a dívida pública. No popular, o governo precisa parar de gastar como se não houvesse amanhã. É sempre bom lembrar que governo nenhum tem dinheiro, ou produz dinheiro. Todos os recursos que ele torra saem do bolso do cidadão. É o povo que paga a conta toda.

Isso exige enfrentar despesas que crescem sem a correspondente expansão da capacidade de arrecadação e produção do país, além de rever privilégios, supersalários, viagens desnecessárias, mordomias incompatíveis com a gestão pública e distorções na administração pública, inclusive no Judiciário. Também é necessário avaliar a sustentabilidade das regras previdenciárias e dos benefícios sociais, sem comprometer a proteção de quem efetivamente depende deles.

Somente quando houver sinais concretos de estabilização das contas públicas e redução do risco fiscal será possível criar condições para uma queda consistente dos juros. Com maior confiança na economia, o Banco Central poderá reduzir a Selic de maneira gradual, sem provocar desequilíbrios cambiais ou comprometer o controle da inflação.

O Brasil não precisa escolher entre juros elevados e irresponsabilidade fiscal. Precisa de uma política econômica que enfrente as causas do endividamento, em vez de tentar eliminar seus sintomas por decreto.

A história econômica brasileira já oferece exemplos suficientes do preço cobrado por experiências que desconsideram os fundamentos da economia. Ignorá-los é correr o risco de repetir erros que custaram caro ao país e, principalmente, à população.

Como ensina a velha máxima, quem ignora a história está condenado a repeti-la. Deus nos livre e guarde desse flagelo. Amém!

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

 

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