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sexta-feira, agosto 14, 2026

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Poupar ou comer?

Marcos Machado

Entre poupar ou comer, o brasileiro já não parece ter muita escolha. A velha e quase sagrada poupança, símbolo de alguma prudência financeira e reserva para os dias difíceis, vem sendo transformada justamente naquilo que deveria evitar: dinheiro para pagar as contas do presente.

Em julho, os brasileiros retiraram R$ 377,92 bilhões das contas de poupança, enquanto os depósitos ficaram abaixo desse volume. O resultado foi uma retirada líquida de R$ 7,15 bilhões, segundo relatório divulgado pelo Banco Central. É mais um sinal de que, para uma parcela cada vez maior da população, guardar dinheiro deixou de ser uma possibilidade. Primeiro é preciso sobreviver. Depois, se sobrar alguma coisa, pensa-se no futuro.

E o futuro, pelo visto, pode esperar.

Em junho, os saques já haviam alcançado R$ 378,3 bilhões. Em julho do ano passado, a situação também era ruim: foram retirados R$ 369,82 bilhões, com saída líquida de R$ 6,25 bilhões. Agora, o movimento se agrava.

Os depósitos em julho caíram R$ 7,3 bilhões, uma redução de 1,9%. Ainda assim, a poupança mantém um estoque respeitável, de aproximadamente R$ 1,02 trilhão. O problema é que esse dinheiro, que deveria funcionar como colchão para emergências, está cada vez mais sendo usado para resolver emergências que deixaram de ser excepcionais e passaram a fazer parte da rotina.

É a economia doméstica entrando no modo sobrevivência.

O fenômeno não pode ser analisado isoladamente. Ele ocorre em meio ao elevado endividamento das famílias brasileiras (82%), que já compromete boa parte da renda mensal. Quando o salário termina antes do mês, a poupança vira complemento de renda. Quando a poupança acaba, entra o cartão. Depois vem o crédito pessoal. Em seguida, o parcelamento. E, quando tudo isso parece insuficiente, resta a velha esperança de que o próximo pagamento consiga resolver o problema criado pelo anterior.

Até comer pode virar financiamento.

A lógica do consumo parcelado chegou a tal ponto que até o delivery, antes associado à praticidade e a algum conforto, já aparece inserido na cultura das prestações. A pizza pode ser consumida hoje e paga em capítulos no cartão de crédito. O hambúrguer chega quente, mas a conta permanece fria nas faturas por meses. Afinal, se a renda não acompanha o preço da comida, parcela-se a comida. O importante é não deixar o estômago esperando pela estabilidade econômica.

É a filosofia do “coma agora, pague depois”.

A retirada da poupança revela mais do que uma mudança de comportamento financeiro. Mostra o enfraquecimento da capacidade de as famílias formarem reservas. Poupar exige uma condição bastante simples: ganhar mais do que se gasta. Para milhões de brasileiros, essa matemática elementar se tornou uma espécie de ficção científica.

O dinheiro entra e desaparece.

Vai para o aluguel, para a prestação, para a conta de luz, para o supermercado, para o combustível, para a escola, para os juros e, eventualmente, para algum pedaço de lazer. Quando sobra, é pouco. Quando não sobra, recorre-se ao crédito. E quando o crédito já está comprometido, recorre-se à poupança.

Assim, a reserva que deveria proteger o cidadão contra o imprevisto real passa a financiar o cotidiano.

O brasileiro ficou sem picanha, sem cervejinha e quase sem feijão com farinha. Não necessariamente porque tenha sido irresponsável com o próprio dinheiro. Simplesmente gastou aquilo que tinha para manter o padrão mínimo de consumo e pagar as despesas que não param de chegar.

O problema é que durante muito tempo lhe disseram que a prosperidade estava logo ali. Bastava acreditar.

E ele acreditou! Santa ingenuidade, ou cumplicidade…

Acreditou no emprego que garantiria renda, na inflação que seria controlada, no crédito barato, no crescimento, na promessa de que o consumo sustentaria a economia e, principalmente, na ideia de que o amanhã seria melhor do que o hoje.

O amanhã chegou. A conta também.

Agora, entre guardar algum dinheiro para o futuro e colocar comida na mesa hoje, a escolha parece cada vez menos econômica e mais biológica. Primeiro vem a fome. Depois, se possível, a poupança.

Não é que o brasileiro tenha perdido a disciplina financeira. Talvez esteja apenas descobrindo que não existe educação financeira capaz de fazer mil reais comprarem o que antes custava quinhentos. E que vida fácil sem sacrifício é só para alguns amigos do amigo…

Quando o dinheiro não dá para poupar, não há palestra sobre investimentos que resolva, nem promessa de campanha que se cumpra.

Há apenas uma alternativa: pagar pela ilusão. E isso, não se faz no parcelado.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

 

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