
Em meio ao esforço do governo para sustentar a narrativa de equilíbrio fiscal e recuperação econômica, um ponto específico das contas públicas passou a concentrar críticas de especialistas: a existência de um déficit adicional de cerca de R$ 7,5 bilhões e a forma como ele vem sendo administrado dentro do Orçamento.
O chamado “rombo” nada mais é do que um desequilíbrio entre receitas e despesas — ou seja, o governo está gastando mais do que arrecada em um determinado recorte. Esse tipo de situação não é incomum em contas públicas, especialmente em cenários de crescimento frágil ou arrecadação abaixo do esperado. O problema, neste caso, está menos na existência do déficit em si e mais na forma como ele é tratado e apresentado.
Para evitar que esse buraco apareça de maneira explícita no resultado fiscal principal — aquele indicador usado para demonstrar cumprimento de metas — o governo tem recorrido a mecanismos contábeis e orçamentários. É o que críticos classificam como “manobra”. Não se trata necessariamente de ilegalidade, mas de uma engenharia fiscal que permite reorganizar números sem alterar, de fato, a situação estrutural das contas.
Entre essas estratégias estão o uso de receitas extraordinárias, como dividendos de estatais, que ajudam a cobrir despesas no curto prazo, mas não se repetem de forma sustentável; a postergação de pagamentos, empurrando gastos para o exercício seguinte; e a reclassificação de determinadas despesas, que deixam de impactar diretamente o resultado primário. Essas medidas funcionam como um ajuste temporário que melhora a aparência das contas sem resolver o desequilíbrio de fundo.

O efeito dessa dinâmica é uma espécie de “contabilidade criativa institucionalizada”, na qual o resultado oficial pode indicar proximidade com a meta fiscal, enquanto pressões reais permanecem acumuladas fora do foco principal. Para o público em geral, isso dificulta a compreensão da real situação econômica do país, já que os números divulgados não capturam integralmente o esforço necessário para fechar as contas.
A crítica central feita por economistas é que esse tipo de abordagem compromete a transparência e a credibilidade da política fiscal. Em vez de enfrentar diretamente o descompasso entre receitas e despesas — seja por meio de revisão de gastos, reforma estrutural ou aumento consistente de arrecadação — opta-se por soluções pontuais que adiam o problema.
Esse movimento ganha ainda mais relevância em um contexto no qual o governo busca reforçar a ideia de responsabilidade fiscal e crescimento sustentável. Ao depender de expedientes contábeis para acomodar déficits adicionais, o risco é construir uma narrativa que não se sustenta no longo prazo. Afinal, déficits não desaparecem: eles apenas mudam de lugar no balanço.
A questão não é apenas técnica, mas política. A forma como o governo escolhe apresentar suas contas define o grau de confiança de investidores, instituições e da própria população. E quando há a percepção de que números estão sendo “ajustados” para caber na meta, a credibilidade passa a ser tão relevante quanto o próprio resultado fiscal.


