O filósofo japonês Masaharu Taniguchi afirma no livro Mistérios da Vida (Seicho-No-Ie do Brasil, São Paulo, 2003, 303 páginas) que o tempo nada mais é do que movimento. O físico Albert Einstein demostrou que ao se atingir a velocidade da luz, 299.792.458 metros por segundo, ou, para ser mais prático, 300 mil quilômetros por segundo, o tempo para. Isso confirma o que os artistas fazem desde sempre: viajar no tempo por meio do coração.

Woody Allen utiliza esse truque com genialidade em Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, Espanha/Estados Unidos, 2011, 100 minutos). O cineasta nova-iorquino faz um poema a Paris, exibindo-a sob todas as suas luzes, especialmente a da meia-noite, quando, na Paris de 2011, um escritor, personagem central do filme, embarca no túnel do tempo rumo aos anos de 1920, e se encontra com Ernest Hemingway de Paris é uma Festa, Francis Scott Fitzgerald de Suave é a Noite, Pablo Picasso e turma. De volta a 2011, que é o tempo dele, descobre a intensidade do momento mesmo da vida, que a verdade pode estar sob a chuva, à meia-noite, em Paris.
A verdade está dentro de nós mesmos. “Aonde quer que a gente vá, levamos sempre nós mesmos” – disse Hemingway. Com efeito, mudanças de ares não solucionam problema algum, pois se passam no plano físico, embora possam significar uma pista para a resolução do conflito, que ocorre, sempre, no coração.
Lembro-me que, em 1971, aos 17 anos, em Macapá, minha cidade natal, uma cidadela ribeirinha, eu lutava para me firmar como escritor, mas isso não rendia sequer um mísero tostão e as pessoas, ao redor, não perdoavam isso; eu me sentia sufocando. Escafedi-me. Fui de carona para o Rio de Janeiro. Havia lido Paris é uma Festa e queria participar também da festa, mas era uma festa que não se passava no meu coração. Um dia, na casa do teatrólogo Paschoal Carlos Magno, em Santa Teresa, disse a ele que queria ir para Paris. Ele me perguntou para quê. Disse-lhe que era para escrever um romance. “Mas você pode escrevê-lo aqui” – disse-me.
Nunca fui a Paris, nem escrevi romance algum no Rio de Janeiro, mas foi lá que eu renasci, da mesma forma que renasci em Buenos Aires, em Manaus, em Belém do Pará, em Brasília. Qualquer cidade é boa para renascermos, basta que descubramos, nela, o portal do tempo, que nos leva ao agora.
Assim como Woody Allen fez em Meia-Noite em Paris, fiz em A CASA AMARELA (Editora Cejup, Belém do Pará, 2002, Editoras Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com).
A turma toda estava lá, em Macapá, sob o perfume dos jasmineiros que choram nas noites tórridas, que são todas as noites, exceto as muitas noites em que sentimos cheiro de água, de tanta chuva. Mas, em agosto, o céu de Macapá parece Paris à meia-noite, e a boca do rio Amazonas arranca o cheiro do Atlântico e o leva até os quiosques na frente do Macapá Hotel, misturando-se à Cerpinha enevoada.
O tempo cronológico é físico; o tempo mental, ou poético, só existe no coração. Os artistas sabem disso. Portanto, não importa onde estiverem, estarão sempre viajando, às vezes, muito alto, a bordo de um avião, batendo papo com Antoine de Saint-Exupéry.
Ray Cunha é jornalista e escritor


