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sexta-feira, abril 24, 2026

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Brasília, ilha da fantasia

Marcos Machado

Até que ponto suas convicções foram construídas a partir de fatos — e até que ponto foram moldadas por versões cuidadosamente editadas da realidade? Você está preparado para a verdade, ou ela é real demais para você suportar? CLIQUE E COMPRE

No calendário oficial, o dia 21 de abril reúne duas celebrações que, à primeira vista, pouco têm em comum: o aniversário de Brasília e o feriado nacional dedicado a Tiradentes. Essas celebrações parecem compartilhar um traço tipicamente brasileiro: a construção de narrativas que resistem mais pela repetição do que pela consistência histórica.

Tiradentes, alçado à condição de mártir da independência, é oficialmente apresentado como símbolo inequívoco de bravura e sacrifício. A imagem, cuidadosamente lapidada ao longo dos anos, guarda semelhanças curiosas com figuras religiosas — barba longa, semblante sereno, destino trágico. O problema é que a história documentada nem sempre acompanha essa estética. Personagem da Inconfidência Mineira, sem dúvida, mas também inserido em um contexto mais complexo, com interesses diversos e resultados bem menos heroicos do que os manuais escolares costumam sugerir. A transformação de um participante em ícone nacional diz menos sobre o homem e mais sobre a necessidade de criar símbolos facilmente assimiláveis.

Algo semelhante ocorre com Brasília. Inaugurada em 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek, a capital foi apresentada como materialização de um projeto grandioso de modernidade e integração nacional. O traço futurista de Oscar Niemeyer e o planejamento urbano de Lúcio Costa deram forma à chamada cidade do futuro — uma promessa que, décadas depois, ainda parece em permanente fase de revisão.

Não faltaram, ao longo do tempo, elementos simbólicos para reforçar essa construção. Um dos mais difundidos é o suposto sonho profético de Dom Bosco, frequentemente citado como evidência quase mística da inevitabilidade de Brasília. A versão popular da história, repetida à exaustão, descreve a visão de uma cidade próspera no Planalto Central. O detalhe inconveniente é que registros mais cuidadosos não confirmam essa narrativa e já há desmentido oficial. Ainda assim, o mito segue útil — afinal, toda grande obra parece precisar de um toque de predestinação.

Ao completar mais um aniversário, Brasília continua sendo uma cidade singular. Planejada, organizada e, para muitos, ainda distante de uma identidade espontânea. Seus monumentos são reconhecidos mundialmente, mas sua relação com os próprios habitantes permanece, em certos aspectos, protocolar. Há quem veja nisso um reflexo do próprio poder que abriga: grandioso na forma, mas nem sempre próximo da realidade cotidiana.

A capital carrega o peso simbólico de ser o centro das decisões nacionais — e, inevitavelmente, também das crises. Escândalos políticos recorrentes acabam projetando sobre Brasília uma imagem que vai além de sua arquitetura ou urbanismo. A cidade se torna menos um lugar e mais um símbolo, muitas vezes associado a práticas que pouco têm a ver com o cidadão comum que vive aqui.

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Entre o mártir e a capital futurista, o 21 de abril expõe uma característica recorrente do país: a facilidade com que narrativas ganham status de verdade consolidada. Questioná-las não é negar a história, mas tentar compreendê-la em sua complexidade, sem os filtros convenientes que o tempo — e os interesses — costumam impor.

No fim das contas, Brasília segue de pé, concreta, enquanto Tiradentes permanece no imaginário coletivo, quase intocável. Um representa o projeto; o outro, o símbolo. Ambos, à sua maneira, ajudam a contar a história de um país que, entre fatos e versões, ainda parece mais confortável com a narrativa do que com a realidade.

O Brasil é o país das narrativas, das verdades criadas, dos heróis e profetas inventados, mas vamos deixar para lá, porque um povo como o nosso, indolente e apegado à delírios coletivos, não vai entender.

A ilha da fantasia, Brasília, completa 66 anos e, apesar da idade, ainda é uma cidade sem identidade.

Sempre renegando seus verdadeiros heróis, dando nomes estranhos a seus espaços públicos, viadutos, pontes e túneis, enquanto promove deliberado esquecimento dos verdadeiros brasilienses que lutaram, brigaram, fizeram e desfizeram em favor da cidade, de sua população.

Pobre capital, referência de toda a corrupção que assola o país, seu povo, seu erário. Os que maculam sua imagem sequer nasceram aqui, ou para aqui vieram construir alguma coisa que não fosse seu próprio patrimônio. Pior, à custa do cidadão, do idoso vulnerável, do incauto investidor de suadas economias.

Brasília, Tiradentes, ilha da fantasia, fantasia da maioria.

Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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