Os números mais recentes sobre o endividamento das famílias brasileiras desmontam narrativas oficiais e manchetes que tentam vender um Brasil “em crescimento sustentável”. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o nível de famílias endividadas em dezembro de 2025 alcançou 78,9%, o maior patamar para um mês de dezembro em toda a série histórica iniciada em 2010, superando o registrado em dezembro de 2024 em 2,3 pontos percentuais.
A análise mais superficial poderia aplaudir a expansão do crédito como um sinal de confiança do consumidor ou combustão do consumo interno. De fato, dados recentes mostram que o crédito bancário subiu 10,2% em 2025, acima das previsões do Banco Central, com destaque para o aumento do crédito às famílias.
O caráter desse crédito importa mais do que o seu crescimento: a maioria das dívidas está concentrada em cartões de crédito, modalidade que tem taxas de juros elevadíssimas, transformando o que seria consumo em armadilha financeira crescente.
Calote em alta
Os dados da Peic também registram que 29,4% das famílias tinham contas em atraso em dezembro de 2025, em alta comparada ao ano anterior. Isso indica que uma parcela significativa sequer consegue honrar seus compromissos.
Outras pesquisas corroboram o crescimento dos casos de atraso: levantamentos da Confederação Nacional de Dirigentes Logistas-CNDL e SPC Brasil mostram que quase 73 milhões de consumidores tinham dívidas em atraso em novembro de 2025, cerca de 43,7% da população adulta, um recorde.
Narrativas x realidade
Enquanto órgãos oficiais e porta-vozes políticos frequentemente destacam indicadores como “desemprego em queda” e inflação controlada como provas de que “a economia vai bem”, os números de endividamento e inadimplência revelam outra face: uma economia em que o acesso ao crédito é estimulado, mas cresce principalmente em modalidades caras e de curto prazo, pressionando o orçamento familiar.
Crescimento do crédito não significa melhoria de renda real ou de capacidade de poupança das famílias; muitas vezes, apenas mascara o gasto para consumo corrente. Acesso ao crédito não significa poder aquisitivo.
Juros elevados (com a Selic em patamares altos por quase todo o ano de 2025) encarecem o crédito e corroem rapidamente a renda disponível, gerando um ciclo de dependência financeira.
Narrativas que vendem o fim de dificuldades econômicas omitem que a expansão do crédito pode exatamente alimentar bolhas de endividamento, em vez de criar bases sólidas de crescimento.
Didaticamente
Economistas distinguem dois conceitos que frequentemente se confundem no discurso público:
- Endividamento — proporção de famílias com alguma forma de dívida ativa.
- Inadimplência — proporção de famílias que não conseguem pagar essas dívidas na data de vencimento.
O Brasil registra taxas elevadas em ambos, um sinal clássico de economia em que o consumo é financiado pelo crédito, mas a capacidade de pagamento diminui ou estagna. Quando o tecido social se apoia mais em dívida do que em renda líquida crescente, a chance de choques econômicos (como aumentos de juros ou desemprego) gerarem efeitos graves na economia real aumenta.
Os dados mostram que o endividamento dos brasileiros não apenas cresceu, como bateu recorde para dezembro de 2025, e que a inadimplência permanece elevada. Este quadro contradiz discursos oficiais que associam indicadores isolados, como queda do desemprego ou inflação controlada, a um quadro macroeconômico “sólido” e sustentável.
A suposta redução da inflação e a expansão do crédito não se traduzem em maior capacidade financeira das famílias. Ao contrário: o crescimento do endividamento no limite do historicamente registrado é um alerta claro de que o consumo está sendo sustentado por dívida, e não por melhoria real da renda. Este é um sinal que as narrativas triunfalistas deveriam absorver antes de proclamar “vitórias” econômicas.


