21.5 C
Brasília
quinta-feira, abril 30, 2026

ANUNCIE

Caem a geração de empregos e o desemprego

Em 2025, o Brasil registrou um paradoxo inquietante que tem alimentado debates intensos entre economistas, jornalistas e analistas políticos: apesar de dados oficiais apontarem que a geração de empregos formais ficou entre as mais baixas dos últimos anos, com um ritmo de criação de vagas indelevelmente encolhido, a taxa de desemprego caiu a patamares históricos, segundo a versão do governo. Mas, como assim? Algo errado não está certo!

Segundo levantamento de agências internacionais com base em dados oficiais do Ministério do Trabalho, o país criou cerca de 1,28 milhão de empregos formais ao longo de 2025, o pior desempenho em cinco anos e a metade do ritmo de anos anteriores, reflexo de juros altos e desaquecimento econômico.

Ao mesmo tempo, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou uma queda constante da taxa de desemprego ao longo do ano, fechando 2025 com cerca de 5,1% no trimestre móvel até dezembro, a menor taxa desde o início da série histórica em 2012. Os dados oficiais também apontam recordes históricos no número total de ocupados (mais de 103 milhões) e no número de trabalhadores com carteira assinada (aproximadamente 38,9 milhões).

Esses números, por mais que oficiais, não escondem um mercado de trabalho frágil à primeira vista. A criação de empregos formais em ritmo lento ocorre em um contexto de juros elevados pela maior parte do ano, desestimulando contratações e investimentos, um fator que por si só explica parte da desaceleração nas contratações.

Mas como explicar, então, a simultaneidade de “queda do desemprego” e baixa geração de empregos formais? A resposta está na forma como as estatísticas são configuradas e nos movimentos subjacentes da força de trabalho.

A taxa de desemprego calculada pelo IBGE considera, de acordo com a metodologia da PNAD, não apenas os empregados formais, mas também ocupados informais, trabalhadores por conta própria e pessoas que mantêm alguma atividade; inclusive aquelas que estão desalentadas ou que desistiram de procurar emprego ativamente são classificadas fora da categoria de desempregado.

Esse método pode amortecer o impacto de um mercado de trabalho de baixa dinamização formal. Assim, se muitas pessoas saem da procura ativa por emprego, seja por frustração, seja por ocuparem trabalhos autônomos de baixa produtividade, ou por se acomodarem em programas assistencialistas como o bolsa família, a taxa de desemprego cai, mesmo que a economia crie poucos postos formais de trabalho.

Crise institucional

A leitura crítica dos números é ainda mais urgente diante da crise institucional no próprio IBGE, que ganhou as manchetes nos últimos meses. Em 2025, a chefia do instituto promoveu saídas e demissões de diretores de pesquisa, gerando reclamações internas de desrespeito ao corpo técnico e acusações de decisões autoritárias.

Servidores denunciaram que a mudança de comando teria impactos negativos sobre a autonomia técnica e a produção de estatísticas, justamente em um momento de revisões metodológicas no cálculo de indicadores como PIB e desemprego, o que suscitou questionamentos públicos sobre a credibilidade dos dados.

No centro dessa crise está o economista Márcio Pochmann, presidente do IBGE indicado pelo governo federal, que enfrentou forte resistência interna e críticas de servidores de carreira. O atrito escalou a ponto de sindicalistas criticarem mudanças estruturais e a gestão de pessoal como “ações de caráter predominantemente midiático”, enquanto opositores políticos questionaram a própria confiabilidade das estatísticas trabalhistas.

Críticos da narrativa oficial apontam precisamente para esses elementos quando falam em “transformar negativo em positivo”: a menor taxa de desemprego da série histórica, embora real nos termos técnicos, pode mascarar um cenário onde muitos trabalhadores deixam de procurar ativamente emprego, migram para ocupações precarizadas ou sobrevivem em atividade informal, e não necessariamente refletem um “mercado aquecido”. A queda na participação na força de trabalho e a inflação salarial em termos nominais também complicam a interpretação.

Manipulação ou “complexidade”?

A dicotomia — menor geração de empregos formais e menor desemprego oficial — não se explica por manipulações óbvias, mas por complexidades metodológicas e movimentos econômicos reais que desafiam narrativas simplistas. A crise no IBGE alimenta um ambiente de desconfiança e politização das estatísticas, algo que, se exacerbado, pode corroer a confiança pública nos indicadores que deveriam ser pilares de políticas públicas e análises econômicas.

relacionados

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Fique conectado

667FãsCurtir
756SeguidoresSeguir
338SeguidoresSeguir
- Publicidade -spot_img

Últimos artigos