Marcos Machado

Eu sou assim. Quando assisto a um filme, vejo bem além das cenas e dos diálogos, e das imagens. Faço, ao tempo todo, conexões com a realidade e avaliação das mensagens, explícitas e implícitas. Eu sei que é chato e tem gente próxima que não gosta de assistir filmes comigo. É o resultado de uma mente inquieta, sempre em estado acelerado, mas essa é outra questão, vamos aos fatos:
Há uma cena em Shooter (Atirador, no Brasil), 2007, que resume com precisão o funcionamento das estruturas de poder. Depois de toda a engrenagem de corrupção ser exposta ao protagonista, o senador Charles Meachum profere, com a naturalidade de quem está no topo da cadeia política:
“A verdade é aquilo que eu disser que é.” (“The truth is what I say it is.”)
Tão crua quanto realista, a frase expressa um princípio que sempre guiou governos, corporações e sistemas de poder: a verdade institucional não é necessariamente a verdade factual: é a versão oficialmente decretada, repetida, distribuída e normalizada pelos canais que controlam a narrativa.
Essa lógica só funcionou durante tanto tempo porque quem detinha meios de comunicação detinha também a capacidade de definir o que a sociedade deveria pensar, sentir e acreditar. E se havia discordância, ela era filtrada, reduzida ou simplesmente ignorada. Era um monopólio sobre a “verdade”.
Tudo mudou com a ascensão das redes sociais e dos canais alternativos de imprensa. Pela primeira vez em décadas, a construção da narrativa pública deixou de ser unilateral. Surgiu o contraditório imediato, o registro espontâneo, a denúncia descentralizada, a prova que circula antes da versão oficial. Surgiu a sociedade informacional e, com ela, a queda progressiva do velho poder de moldar consensos.

A fala de outro personagem de Shooter, o velho Mr. Rate, torna-se igualmente simbólica. Sentado calmamente, ele desvela a fragilidade das verdades oficiais:
“Também disseram que os adoçantes artificiais eram seguros, que havia armas de destruição em massa no Iraque, e que Anna Nicole casou por amor.” (They also said that artificial sweeteners were safe, WMDs were in Iraq, and Anna Nicole married for love.”)
A ironia expõe o que muitos já sabem: governos, entidades e grandes veículos erram e, muitas vezes, erram convenientemente. Grosso modo, mentem, mesmo.
Sem redes sociais e sem imprensa alternativa, parte expressiva da sociedade hoje acreditaria, sem questionamento, em narrativas políticas apresentadas como absolutas, incluindo interpretações controversas sobre eventos recentes que envolvem protestos, investigações, perseguições judiciais discutidas à luz da Constituição e da legalidade. Sem contraditório real, seria fácil consolidar versões únicas, imunes ao debate público.
O mesmo se aplica às revelações sobre atuações de bastidores, conflitos de interesse, desvios de finalidade e responsabilidades institucionais ligadas ao escândalo envolvendo o Banco Master. Não fossem os ambientes digitais e o jornalismo independente, essas informações teriam permanecido confinadas a gavetas ou enterradas sob o silêncio conveniente de quem controla pautas e prioridades.
O ponto central é claro: o sistema não teme a desinformação; teme a perda do monopólio da informação.
O esforço de regulamentar redes sociais, plataformas digitais e até fluxos de conteúdo na internet nasce, em grande medida, do desejo de restaurar o ambiente em que a frase do senador Meachum poderia voltar a valer. Um mundo em que “a verdade é aquilo que eu disser que é” não admite múltiplas vozes, múltiplas apurações, múltiplos olhares. Exige controle, centralização e silêncio.
A disputa contemporânea não é técnica nem jurídica, é essencialmente política: trata-se de decidir quem tem o direito de contar a história. Se a sociedade, com todas as suas imperfeições, excessos e barulhos, ou se aqueles que ocupam o topo do aparato estatal e econômico.
A retomada da narrativa, desejada por tantos setores, nada mais é do que a tentativa de restaurar o velho modelo pré-internet: poucos falam, muitos escutam, ninguém questiona. Mas o mundo mudou e, mesmo com todas as suas deformações, a liberdade informacional permanece sendo a maior barreira contra versões produzidas sob medida para beneficiar grupos específicos.
A verdade, hoje, não pertence mais a ninguém e justamente por isso, talvez, seja mais verdade do que jamais foi.
PS: para quem desconhece a história
1. “Também disseram que os adoçantes artificiais eram seguros”
Refere-se às campanhas e discursos oficiais, especialmente nas décadas de 1970 a 1990, que afirmavam não haver riscos no consumo de adoçantes artificiais como sacarina, ciclamato e, depois, aspartame. Com o tempo, estudos mais aprofundados passaram a apontar possíveis efeitos adversos, gerando debates sobre segurança, regulação e os interesses econômicos envolvidos. A frase destaca como, muitas vezes, verdades “certificadas” por autoridades são depois questionadas ou revistas. (Lembre-se das “vachinas”).
2. “Que havia armas de destruição em massa no Iraque”
Alusão direta ao principal argumento usado pelos Estados Unidos e aliados para invadir o Iraque em 2003. O governo norte-americano afirmava possuir provas de que Saddam Hussein mantinha armas químicas, biológicas e até projetos nucleares. Após a invasão, descobriu-se que tais arsenais não existiam. Esse episódio se tornou um símbolo mundial de como informações oficiais podem ser manipuladas para justificar ações políticas e militares.
3. “E que Anna Nicole casou por amor”
Anna Nicole Smith, modelo e celebridade americana, casou-se em 1994 com o bilionário J. Howard Marshall II, então com quase 90 anos, enquanto ela tinha 26. A união gerou forte repercussão e acusações de que o casamento teria sido motivado por interesse financeiro; suspeita reforçada por disputas judiciais pela herança após a morte dele. Dizer que ela “casou por amor” é usado como exemplo de uma afirmação amplamente vista como improvável ou conveniente.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


