Marcos Machado

Foi mais do que um simples tapa na cara, foi um pontapé no traseiro da sociedade brasileira, ao menos da maioria. O recado foi claro: quem manda aqui é a gente e a gente faz o que bem entende.
Representatividade popular? Ah, isso é só no papel, para “inglês ver”.
A votação, que deveria ser uma demonstração de independência e vigilância do poder Legislativo, virou apenas mais um ritual de submissão e conveniência política, um espetáculo previsível encenado por quem confunde dever público com apadrinhamento institucional.
O Senado, mais uma vez, cumpriu o patético papel de carimbar decisões já tomadas nos bastidores, como se a vontade do povo fosse um detalhe menor. A sociedade assiste, incrédula, a mais um capítulo em que a política se fecha sobre si, protegendo seus interesses individuais e ignorando o clamor das ruas. Fala-se em legalidade, em ritos constitucionais, mas o que se vê é a legalização do faz de conta, a normalização da complacência.

Não é de hoje que o cidadão se sente traído por aqueles que deveriam ser seus representantes. O Senado, que deveria ser o guardião da República, tem se comportado como um clube restrito de conveniências, onde acordos valem mais do que princípios e o interesse público é apenas um enfeite retórico. O resultado dessa encenação é sempre o mesmo: os mesmos rostos, os mesmos discursos, as mesmas decisões que alimentam o descrédito nas instituições.
Agora, cabe ao povo tomar vergonha na cara, ou na bunda, e entender que recondução não é sinônimo de impunidade. É preciso lembrar que os cargos públicos pertencem ao Estado, não às pessoas. E que a confiança do cidadão não se renova por decreto, mas por mérito, transparência e respeito à lei, inclusive àquela que o próprio poder se arvora em interpretar conforme a conveniência do momento.
Se o Senado deu um chute no povo, talvez tenha chegado a hora de o povo aprender a revidar nas urnas, com consciência e memória.
O recado do Senado foi alto e claro.
_ Mas, e o povo, senador?
Como dizia Zélia Caridosa de Mello, da Escolinha do Professor Raimundo (na interpretação de Nádia Maria)…
_ “O povo? Bem, o povo é só um detalhe”.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


