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quinta-feira, abril 30, 2026

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‘Memento mori’ ou Todo poder é efêmero

Marcos Machado

Reza a lenda que, durante os triunfos romanos, as grandes celebrações oferecidas aos generais vitoriosos, o imperador, coberto de louros e ovacionado pelo povo, era seguido por um escravo. Esse escravo tinha uma única e austera missão: sussurrar-lhe ao ouvido a frase “Memento mori” — “lembre-se de que você é mortal”. Ou, em uma adaptação moderna e mais simbólica, “todo poder é efêmero”.

Embora os registros históricos sobre a prática variem e careçam de comprovação direta, muitos atribuem essa narrativa mais ao campo da tradição do que ao rigor factual, a ideia sobreviveu ao tempo, e por boas razões. Trata-se de um lembrete atemporal sobre a transitoriedade da glória, a fragilidade da autoridade e a vaidade humana diante do tempo.

A prática é comumente associada aos desfiles triunfais em Roma. O general — ou mais tarde, o próprio imperador — desfilava pelas ruas de Roma em uma biga puxada por cavalos, ladeado por soldados, prisioneiros de guerra e tesouros saqueados. O povo aclamava, os sacerdotes abençoavam, e o Senado, em silêncio muitas vezes desconfiado, assistia (parece que a prática se perpetua). Atrás dele, no entanto, um escravo murmurava a máxima que desfazia o delírio da imortalidade: “Respice post te. Hominem te memento” (“Olhe para trás. Lembre-se de que és apenas um homem”).

Não há consenso entre os historiadores sobre a veracidade da cena. Alguns consideram uma construção posterior, talvez medieval, com objetivo moralizante. Outros veem nela um reflexo genuíno da complexa relação romana com o poder, a fama e os deuses. Independentemente da origem exata, o simbolismo permanece forte.

O conceito implícito na frase é devastadoramente simples: não há poder que dure para sempre. Nem coroas, nem cargos, nem conquistas. A roda da história gira com indiferença aos títulos, aos monumentos ou aos nomes gravados em moedas. Césares foram apunhalados, Napoleões foram exilados, impérios ruíram com a mesma naturalidade com que foram erguidos.

a queda é parte inevitável do ciclo

Esse princípio, embora evidente na trajetória da humanidade, é frequentemente ignorado por quem alcança posições de influência. O poder tende a embriagar. Torna-se fácil confundir deferência com amor, controle com permanência, autoridade com invencibilidade. Daí a necessidade de um escravo simbólico, ou real, que lembre: tudo passa. Até você.

A frase “todo poder é efêmero” parece mais urgente do que nunca nessa era de lideranças populistas, cultos à personalidade e ciclos políticos cada vez mais rápidos. O sussurro do escravo foi substituído por algoritmos de aprovação, bolhas digitais e vaidades infladas por curtidas. Faltam vozes que lembrem aos que estão no topo, de empresas, governos ou redes sociais, que a queda é parte inevitável do ciclo.

Esse esquecimento não é apenas pessoal; é institucional. Quando instituições perdem a memória de que o poder deve ser limitado, fiscalizado e temporário, abrem-se as portas para o autoritarismo. Por isso, mais do que uma lenda, o murmúrio romano é um aviso civilizacional.

Talvez nunca tenha existido o escravo que sussurrava nos ouvidos dos imperadores, mas é inegável que deveria ter existido, porque a humanidade precisa ser lembrada, vez ou outra, de sua mortalidade, e os que detêm poder, mais ainda. Toda glória é breve. Toda autoridade é frágil. Todo poder, inevitavelmente, é efêmero.

Que isso nunca seja esquecido.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira

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