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domingo, março 15, 2026

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Tarantino, poesia em sangue e legendas que matam

Marcos Machado

Você sabia que quase 20% dos bacharéis em atividade no País são analfabetos funcionais?

Quentin Tarantino sempre foi mais do que um diretor: é um filósofo-poeta do cinema. Sua filmografia revela obras de arte com fundo conceitual, onde texto e contexto se entrelaçam em diálogos elaborados, referências culturais e uma estética inconfundível. Cada produção é feita para ser degustada lentamente, em pedaços, como se fossem capítulos de um livro sangrento; exemplo claro é Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015). Ambientado no rigoroso inverno do Velho Oeste, o filme reúne personagens interpretados por Samuel L. Jackson (Major Marquis Warren), Kurt Russell (John Ruth), Jennifer Jason Leigh (Daisy Domergue) e Walton Goggins (Chris Mannix), entre outros, em um enredo sufocante de traições e mortes, transformando a violência em poesia.

No entanto, toda essa construção minuciosa pode ruir diante de um detalhe aparentemente banal: as legendas. Uma má transcrição de diálogos é capaz de destruir a experiência do espectador, mergulhando a obra no poço da mediocridade.

Foi exatamente isso que percebi em um voo recente sobre o Atlântico, ao assistir Era uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time in Hollywood, 2019), nono longa da carreira de Tarantino. O filme, estrelado por Leonardo DiCaprio (Rick Dalton), Brad Pitt (Cliff Booth) e Margot Robbie (Sharon Tate), recria com delicadeza e brutalidade a atmosfera da Los Angeles dos anos 1960, tensionando memórias da indústria cinematográfica com episódios reais da cultura americana.

Você sabia que tudo isso é resultado de um projeto ideológico de longo prazo, e que está dando certo?

Assim como em The Hateful Eight, a força do filme está nos diálogos e nas nuances interpretativas, mas, infelizmente, a versão legendada disponível comprometeu a narrativa, o que se tornou um problema recorrente no Brasil. O problema não estava apenas em pequenas falhas técnicas, mas no uso de termos vulgares e inadequados para certas situações e personagens, modificando completamente o tom das cenas.

Um caso emblemático ocorre na sequência em que a atriz mirim Trudi Fraser (vivida por Julia Butters) contracena com Rick Dalton (DiCaprio), que vive uma crise emocional diante da decadência de sua carreira. Trudi é mostrada como uma criança precoce, brilhante, que discute literatura e filosofia com naturalidade. No entanto, na legenda em Português, a personagem comete erros de conjugação e deslizes linguísticos que contradizem seu perfil original. Essa escolha de tradução não apenas empobrece a personagem, mas também desfigura a intenção do roteiro de Tarantino, que sempre constrói seus diálogos com precisão cirúrgica.

Era uma Vez em… Hollywood foi indicado a dez Oscars e venceu dois: Melhor Ator Coadjuvante (Brad Pitt) e Melhor Direção de Arte. Já The Hateful Eight rendeu a Ennio Morricone o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original. Obras de grandeza reconhecida, mas que, no Brasil, podem ser reduzidas a meras caricaturas quando vítimas de legendagens descuidadas.

Se Tarantino nos convida a saborear o cinema como um banquete de sangue e poesia, o mínimo que se espera é que a tradução respeite os ingredientes. Do contrário, o prato servido ao espectador brasileiro vira uma paródia empobrecida do original.

Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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