
A arrecadação federal bateu novo recorde. Nos nove primeiros meses de 2025, o governo recolheu R$ 2,105 trilhões, um aumento de 3,49% em termos reais em relação ao mesmo período do ano passado. Em valores nominais, o salto foi de 6,67%. A Receita Federal comemora o resultado como “melhor desempenho em 25 anos”, mas o que os números revelam, na prática, é um governo cada vez mais sedento pelo dinheiro do povo, enquanto o contribuinte, especialmente o mais pobre, continua sufocado por uma carga tributária crescente.
O discurso oficial é de eficiência. Fala-se em melhora na arrecadação e em “reforço fiscal”, mas, na vida real, o cidadão comum sente apenas o peso no bolso. Cada centavo a mais que entra nos cofres públicos vem de algum lugar: do consumo, do salário, da conta de luz, da gasolina, do supermercado. O aumento da arrecadação é celebrado como sinal de saúde financeira, quando deveria ser visto também como sintoma de um país onde o governo arrecada muito, mas entrega nada.
Enquanto o dinheiro jorra dos impostos, a contrapartida em serviços públicos é tímida, e os gastos federais continuam crescendo sem transparência suficiente. O cidadão que paga a conta raramente sabe para onde vai o dinheiro que sai de seu salário ou de sua compra do mês. Relatórios oficiais apontam aumentos em despesas com custeio da máquina, reajustes salariais e programas de difícil acompanhamento. O problema não é apenas o quanto o governo gasta, mas o quanto gasta sem clareza, e com resultados duvidosos.
A disparidade é gritante: de um lado, o governo comemora cada bilhão arrecadado; de outro, milhões de brasileiros lutam para fechar o mês. A inflação dos alimentos e dos serviços básicos corrói o poder de compra, enquanto o retorno dos impostos não aparece em hospitais melhores, transporte mais digno ou segurança nas ruas. O mesmo governo que exige cada vez mais do contribuinte se revela incapaz de aplicar o dinheiro com eficiência.
Tributação e distorção

Os dados comparativos internacionais ajudam a explicar o tamanho da distorção. O Brasil arrecada cerca de 32% do PIB em tributos, nível semelhante ao de países desenvolvidos, mas com serviços públicos muito inferiores. A diferença está em como se arrecada. Enquanto nações mais ricas concentram a tributação sobre renda e patrimônio, o Brasil mantém o foco no consumo. Aproximadamente 45% de toda a arrecadação vem de impostos indiretos embutidos nos preços de produtos e serviços, o que penaliza justamente quem ganha menos. Os mais pobres destinam a maior parte de sua renda ao consumo básico, e acabam pagando proporcionalmente mais imposto.
Essa estrutura regressiva amplia o flagelo econômico das camadas populares. Cada aumento de arrecadação sobre o consumo, seja em combustíveis, energia, alimentação ou serviços, é um golpe direto na renda do trabalhador. O resultado é um sistema que cobra mais de quem menos pode pagar.
O retorno social dessa carga tributária é frustrante. Mesmo arrecadando como países da OCDE, o Brasil continua a conviver com escolas precárias, filas na saúde e infraestrutura deficiente. A sensação é de que o governo trabalha bem para arrecadar, mas mal para devolver em forma de serviços. A transparência dos gastos públicos, embora formalmente disponível, é dispersa, pouco didática e incapaz de traduzir para o cidadão comum como os recursos são aplicados.
Insaciável
A sanha arrecadatória, fantasiada de “responsabilidade fiscal”, tornou-se um círculo vicioso. Em vez de cortar gastos improdutivos e combater desperdícios, o governo prefere aumentar a arrecadação. A lógica é simples e cruel: é mais fácil tirar do povo do que reformar o governo. Impostos indiretos e contribuições sobre o consumo pesam justamente sobre quem ganha menos, perpetuando o flagelo econômico das classes mais vulneráveis.
O resultado é um paradoxo que se repete ano após ano: o Brasil é um dos países que mais arrecadam no mundo em proporção ao PIB, mas continua com serviços públicos precários e um endividamento crescente. O Estado engorda, o cidadão emagrece. A sociedade trabalha cada vez mais para sustentar uma máquina que consome sem prestar contas.
Enquanto o discurso oficial fala em “ajuste fiscal” e “melhoria da gestão”, o que se observa é o velho hábito de resolver o desequilíbrio das contas com mais arrecadação, e não com mais eficiência. O problema das finanças públicas brasileiras não é falta de dinheiro, é falta de prioridade, transparência e coragem política para reformar o que realmente importa. Sem inverter essa lógica, a cada recorde de arrecadação corresponderá um recorde de frustração social.


