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segunda-feira, abril 20, 2026

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Papagaio ou repórter?

Marcos Machado

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A crise que atravessa a imprensa brasileira não é mais apenas uma suspeita incômoda: tornou-se evidência cotidiana. Em grande parte das redações, o faro jornalístico enfraqueceu, o rigor se diluiu e a curiosidade, motor essencial do repórter, parece ter sido substituída por uma confortável postura de repetição. O profissional que antes investigava, confrontava e questionava, hoje se limita a transmitir, quase sem filtros, a informação que recebe pronta dos gabinetes oficiais. Em muitos casos, atua menos como repórter e mais como mensageiro disciplinado, reproduzindo versões sem confronto, dados sem análise e afirmações sem escrutínio, com a mesma docilidade de um papagaio bem treinado.

O cenário se agravou a ponto de a verificação factual, antes pedra angular do bom jornalismo, parecer peça de museu: respeitada, mas raramente usada. Basta um órgão público disparar uma nota para que portais e jornais se apressem em publicar o conteúdo, movidos pela corrida do “sair antes”, ainda que isso signifique errar mais. O impulso de repercutir substituiu a obrigação de apurar.

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Nesse vácuo deixado pela imprensa profissional, as redes sociais se transformaram, por méritos e deméritos próprios, no espaço onde versões oficiais passam a ser questionadas. Mas essa substituição está longe de representar avanço. Conteúdos improvisados, vídeos gravados no banco de trás de um carro, textos mal pontuados ou postagens construídas às pressas passaram a disputar, e muitas vezes a dominar, o espaço público. A gramática é sofrível, a argumentação é frágil e o sensacionalismo costuma ser o tempero principal. Ainda assim, para boa parte do público, esse conteúdo amador soa mais autêntico do que o noticiário tradicional. Não porque seja melhor, mas porque o jornalismo profissional deixou um espaço gigantesco desocupado.

Nesse ambiente, amadores, alguns bem-intencionados, outros nem tanto, assumiram o protagonismo. Tentam fazer o trabalho que deveria ser do repórter: questionar, desconfiar, confrontar. Mas sem método, sem apuração e, muitas vezes, sem compromisso com a precisão, acabam gerando mais ruído do que esclarecimento. O resultado é uma disputa desigual entre os papagaios de gabinete e os gladiadores digitais improvisados. O leitor fica preso entre os dois extremos.

Ao mesmo tempo, a cena oficial segue seu enredo previsível: governo divulga números questionáveis, autoridades apresentam interpretações otimistas demais, órgãos públicos oferecem versões prontas e generosas de si mesmos. No dia seguinte, veículos tradicionais repercutem o conteúdo como se fosse relato isento, sem análise crítica, sem contextualização e com contraditório mínimo, quando não, nulo. A crítica, elemento essencial da reportagem, virou apêndice.

Nesse vazio, as redes assumem o contraponto, mas fazem isso da maneira possível, não da maneira certa. O leitor que dá mais crédito a um texto mal escrito, ou a um vídeo narrado com grosseiros erros de Português, do que a uma matéria convencional não está celebrando a vitória do amador; está, na verdade, indicando a falência do profissional.

O saldo desse processo é devastador: jornalistas que abandonaram o papel de repórteres para se tornarem meros replicadores de conveniências, e redes sociais que ocupam o vácuo com protagonismo improvisado, mas nem sempre responsável. O efeito comum é a erosão da confiança pública na mídia tradicional, nos novos canais de comunicação e, por consequência, na própria informação.

Se o jornalismo, em seus melhores momentos, funcionou como contraponto ao poder, hoje parece disposto a funcionar apenas como seu acessório. Enquanto repórteres forem transformados em papagaios e as redes sociais em tribunais informais, a imprensa continuará sua rota de irrelevância: barulhenta, fragmentada e cada vez menos capaz de voar.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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