Como nunca antes na história (sic), nunca se deveu tanto no país. A mais recente Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), revela que 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em junho de 2026, o maior patamar já registrado pela série histórica.
Do total de famílias endividadas, 29,9% estavam com contas em atraso e 12,3% admitiram não ter condições de quitar os débitos vencidos. O cartão de crédito continua sendo o principal protagonista dessa escalada, apontado por 84,6% dos entrevistados como a principal modalidade de dívida.
O percentual de famílias endividadas já havia alcançado o recorde em maio e permaneceu inalterado em junho, sinalizando que o problema deixou de ser conjuntural para assumir caráter estrutural.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reconheceu que o cartão de crédito alcança mais de 101 milhões de brasileiros e se tornou o principal vetor do endividamento das famílias. Segundo ele, o crescimento do crédito rotativo ganhou força após a pandemia, impulsionado pela perda de renda e pelas mudanças nos meios de pagamento, deixando de ser apenas uma questão de comportamento individual para representar um desafio à estabilidade financeira.
Na mesma linha, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, recomendou que os brasileiros “pensem duas vezes” antes de utilizar o cartão de crédito. Para ele, o consumidor deve evitar o chamado “crédito ruim”, caracterizado por juros elevados e ausência de garantias, priorizando modalidades mais baratas, como o crédito consignado. Durigan também defendeu mecanismos que impeçam consumidores já superendividados de continuar obtendo novos cartões de crédito.
Dissociação da realidade
As declarações das autoridades revelam uma curiosa distância entre o discurso oficial e a vida real das famílias brasileiras. Em teoria, basta usar o cartão com responsabilidade. Na prática, milhões de brasileiros sequer conseguem escolher entre consumir ou não consumir. O dilema é muito mais básico: comprar comida ou passar fome.
O cartão de crédito deixou de financiar viagens ou bens de consumo duráveis; o pobre não viajou de avião, nem comeu picanha. Para uma parcela crescente da população, ele passou a financiar supermercado, farmácia e despesas essenciais. Comer, no Brasil, tornou-se uma operação de crédito.
Não por acaso, grandes redes varejistas passaram a oferecer o parcelamento das compras do mês em várias vezes no cartão de crédito. O aparente alívio se transforma rapidamente numa armadilha financeira. Afinal, alimentação não é uma despesa eventual. No mês seguinte, há outra compra para fazer enquanto as parcelas da anterior continuam vencendo. O resultado é um efeito cascata em que a dívida cresce mais rápido que a renda.
Nesse cenário, recomendações para que o consumidor simplesmente “pense duas vezes antes de usar o cartão” soam desconectadas da realidade de quem já não consegue fechar as contas no fim do mês. A orientação faria sentido se o problema fosse excesso de consumo supérfluo. Os dados, porém, indicam uma realidade diferente: o crédito vem sendo utilizado para sustentar despesas básicas em um ambiente de renda comprimida e inflação persistente dos alimentos.
O contraste entre os discursos otimistas frequentemente apresentados sobre o desempenho da economia e os números recordes de endividamento ajuda a explicar a percepção de muitos brasileiros de que existem dois países distintos. Um aparece nas apresentações oficiais com indicadores celebrados. O outro surge na fila do supermercado e no orçamento doméstico, onde cada compra é calculada em parcelas.
Se a economia vai tão bem quanto afirmam os discursos oficiais, fica a pergunta inevitável: por que nunca houve tantas famílias endividadas, tantas contas em atraso e tantos brasileiros declarando que simplesmente não conseguirão pagar o que devem? Talvez essa seja a estatística mais eloquente sobre a distância entre a narrativa e a realidade. Para quem vive fora da bolha do poder, a sensação é de que o país oficial e o país real já deixaram de falar a mesma língua. Nárnia, afinal, parece ter ganhado CEP. É aqui!


