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quinta-feira, junho 4, 2026

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Jambu: um sabor literário da Amazônia brasileira

*Marcos Machado

Ray Cunha nunca decepciona quem busca mais do que paisagens e folclore ao tratar da Amazônia. Em Jambu, o autor apresenta um romance-documentário que mistura crônica política, denúncia social e pinceladas de realismo fantástico, com o dom raro de transformar a floresta em personagem, cúmplice e testemunha. O título de seu livro (Jambu) remete a um ingrediente típico da região, mas também sintetiza o efeito do livro: não precisa ter vivido a Amazônia para sentir seu gosto intenso, estranho e viciante.

A narrativa é conduzida com ritmo jornalístico, sem perder a densidade literária. A crítica é clara e corajosa: Ray desmonta discursos oficialistas sobre a causa indígena, expõe o tráfico humano, a exploração sexual de crianças e adolescentes, e o saque institucionalizado das riquezas naturais, com uma crueza que incomoda (e precisa incomodar). Nada escapa à sua lupa: das ONGs supostamente salvacionistas ao descaso das autoridades, o autor revela um cenário em que a floresta serve de biombo para práticas antigas de poder e conivência.

No Brasil, de cada três pessoas, uma é analfabeta funcional, incapaz de ler e entender o que lê, de compreender instruções e se comunicar adequadamente. Você também não sabia?

Jambu não é só denúncia, é também fascínio. Os capítulos sobre a Operação Prato, missão militar brasileira para investigar fenômenos ufológicos no Pará, dão ao livro um tom misterioso e provocador, lembrando que a Amazônia continua sendo um território de enigmas geográficos, humanos e cósmicos. Ray Cunha sabe equilibrar o real e o insólito, sem jamais cair no sensacionalismo barato. Sua escrita é sóbria, certeira, e tem gosto de verdade.

No fim das contas, Jambu é uma obra para ser saboreada com curiosidade e coragem, como o prato que lhe dá nome e, já que o autor nos instiga tanto pelo paladar quanto pela mente, nada mais justo do que fechar essa crítica com a receita que batiza o livro.

RECEITA DE TACACÁ COM JAMBU

Para quatro pessoas

Ingredientes:

Um maço de jambu (folhas e talos)

500g de camarão seco (sem casca e com cabeça)

Um litro de tucupi (suco fermentado da mandioca brava)

Dois dentes de alho amassados

Duas pimentas-de-cheiro

Uma colher de sopa de goma de tapioca

Sal a gosto

Modo de preparo:

Cozinhe o jambu em água com um pouco de sal por cerca de 15 minutos. Escorra e reserve.

Você sabia que tudo isso é resultado de um projeto ideológico de longo prazo, e que está dando certo?

Ferva o tucupi com alho e pimenta-de-cheiro por 20 minutos, para suavizar a acidez. Reserve aquecido.

Dissolva a goma de tapioca em um pouco de água fria e leve ao fogo, mexendo sempre até virar um mingau translúcido. Reserve.

Monte o tacacá em cuias (ou tigelas): coloque primeiro uma concha de goma, depois o jambu, os camarões e por fim o tucupi quente por cima.

Sirva imediatamente, com pimenta a gosto.

(Receita obtida em pesquisa por IA)

Jambu, o livro e o prato, não se consomem apressadamente. Ambos exigem tempo, entrega e um certo apetite pelo inusitado. Ray Cunha nos oferece isso com generosidade: uma Amazônia que não cabe em panfletos turísticos nem em mapas oficiais. Uma Amazônia para ser lida, pensada e, por que não, degustada.

 

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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