
A crise detonada pelo escândalo do Banco Master, investigado por fraudes bilionárias em carteiras de crédito, abriu uma fissura perigosa no sistema financeiro de Brasília e provocou uma fuga estimada em R$ 400 milhões de investidores do Banco de Brasília (BRB). A retirada de recursos, estimulada pelo temor de contaminação, revela a dimensão do impacto reputacional sofrido pela instituição controlada pelo Governo do Distrito Federal, que agora tenta convencer o mercado de que não corre risco de insolvência.
Apesar do pânico inicial, o BRB garante que não está à beira de quebrar. O banco afirma possuir mais de R$ 80 bilhões em ativos totais, uma carteira de crédito superior a R$ 60 bilhões e lucro líquido expressivo no ano. A instituição sustenta ter recuperado ou substituído cerca de R$ 10 bilhões das carteiras adquiridas do Master, que somavam originalmente R$ 12,76 bilhões. Esses números, segundo a própria direção, indicariam que a exposição direta à instituição fraudada seria hoje “mínima”.
O problema é que o discurso oficial não elimina as dúvidas. Uma decisão judicial recente apontou que os créditos comprados do Master, alguns posteriormente identificados como irregulares, chegaram a representar até 30% dos ativos do BRB, uma proporção incomum para uma operação desse gênero e que reforça a suspeita de que houve afrouxamento de critérios técnicos e falhas graves de governança. A abertura de auditoria externa independente pelo próprio banco confirma que a direção reconhece a necessidade de apuração interna.
No centro dessa controvérsia está a responsabilidade do governo de Brasília (GDF), controlador de mais de 70% das ações do BRB. Como acionista majoritário, o GDF tinha o dever de fiscalizar decisões estratégicas e manter mecanismos de controle rígidos sobre aquisições de carteiras de crédito. Porém, investigações do Ministério Público e questionamentos do Tribunal de Contas do DF apontam que a negociação com o Master foi conduzida com pouca transparência e sem discussão adequada entre acionistas, o que indica falhas potenciais na gestão pública do banco.
Em casa

O desconforto político aumentou com o avanço das apurações. A chefe de gabinete do governador Ibaneis Rocha, Juliana Monici, foi incluída pela Comissão de Valores Mobiliários entre os réus do caso por sua atuação no Conselho Fiscal do BRB. A Procuradoria também apura a conduta de ex-dirigentes como o então presidente Paulo Henrique Costa e o ex-diretor financeiro Dário Garcia Jr., que deixaram os cargos após o avanço das investigações. No governo, a informação é tratada com cautela, mas internamente há preocupação com o desgaste público, especialmente porque um banco estatal envolvido em escândalo financeiro costuma gerar repercussão política de longo alcance.
Circulam rumores, sobretudo nas redes sociais, de que familiares de autoridades do governo federal teriam participado do conselho do Banco Master. Até o momento, porém, nenhuma investigação séria ou publicação jornalística de credibilidade confirmou esses vínculos. Os principais alvos formais das investigações são o próprio controlador do Master, Daniel Vorcaro, executivos da instituição e agentes ligados diretamente ao BRB, inclusive no alto escalão do governo de Brasília.
A crise não chegou ao ponto de pôr o BRB em risco imediato de insolvência, mas a combinação de escândalo bilionário, fuga de capital, desconfiança do mercado e investigações múltiplas aponta para um problema estrutural de governança que não pode ser ignorado. O banco público de Brasília, projetado para ser instrumento de desenvolvimento local, acabou exposto a um dos maiores casos de fraude financeira do país, e agora o governo precisa lidar não apenas com o impacto econômico, mas com o peso político de explicar como e por que uma operação dessa dimensão foi aprovada sem a devida cautela.
O que está em jogo não é apenas o equilíbrio do BRB, mas a credibilidade da gestão pública sobre bens e recursos que pertencem à população de Brasília. A crise no Master expôs fragilidades que o governo agora tenta conter, mas cujas consequências — financeiras, políticas e institucionais — ainda estão longe de uma definição.


