24.1 C
Brasília
domingo, abril 19, 2026

ANUNCIE

Foi um elogio, não uma crítica!

Marcos Machado

No Brasil, entre três pessoas, uma é analfabeta funcional. Você sabia que o QI do brasileiro está abaixo da média mundial?

Noutro dia, postei um comentário em uma publicação de propaganda em rede social tecendo elogio, isso mesmo, elogio, à performance de uma narração com a utilização correta da língua portuguesa. Não sei se a peça fora produzida por Inteligência Artificial ou não, mas os tempos verbais estavam corretos, as pausas adequadas e a dinâmica narrativa fluía com precisão rara. Tudo estava em seu devido lugar.

Eu elogiei. Bastou isso para que surgisse uma enxurrada de respostas ao comentário, a maioria em “defesa” da “apresentadora”, como se a mera constatação de qualidade técnica fosse uma crítica, apesar de ser um elogio claro, direto, sem dubiedades, ou margem para interpretação contrária. O episódio, banal em aparência, revela um buraco mais profundo e preocupante: o da deficiência de leitura e compreensão que atravessa a sociedade brasileira.

Dados recentes do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) apontam que 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais. Isso significa que quase um terço da população adulta do país, embora saiba ler palavras simples, não é capaz de compreender o que quer dizer um texto primário, interpretar informações básicas ou aplicar o que leu em situações do cotidiano. Desses, cerca de 7% são analfabetos absolutos, incapazes até de ler frases curtas. O dado é ainda mais alarmante entre os jovens: o índice de analfabetismo nessa categoria subiu de 14% em 2018 para 16% em 2024. Mesmo entre pessoas com ensino superior, 12% não conseguem compreender textos de forma satisfatória.

Você sabia que quase 30% dos empregados das empresas são analfabetos funcionais, incapazes de entender instruções escritas ou escrevê-las? CLIQUE NO LIVRO E SAIBA MAIS

Esses números conflitam com a taxa de alfabetização formal divulgada pelo IBGE, que chegou a 93% em 2022, a maior da história do país. Em teoria, trata-se de um avanço. Na prática, porém, a diferença entre alfabetização e letramento funcional é o que aprofunda o abismo.

Saber ler e escrever um bilhete não é o mesmo que compreender, analisar e argumentar a partir de um texto. O dado revela que o país conseguiu universalizar o ensino básico, mas não garantiu o aprendizado efetivo, especialmente nas camadas mais pobres e nas regiões Norte e Nordeste, onde as desigualdades históricas de acesso à educação persistem.

O problema não é apenas educacional, é também cultural e comunicacional. Quando se elogia uma narração pela correção linguística e isso é interpretado como crítica pessoal, o que está em jogo não é o argumento, mas a capacidade de leitura e interpretação. O reflexo automático nas redes sociais, movido por emoção e não por compreensão, mostra o quanto a sociedade se tornou vulnerável à superficialidade e à manipulação. A internet ampliou o acesso à informação, mas não garantiu a leitura crítica, e o resultado é um debate público dominado por ruído, descontextualização e estupidez.

O INAF mostra ainda que a estagnação do alfabetismo funcional se mantém há pelo menos seis anos, sem avanços significativos. Há 23 anos, o índice de brasileiros plenamente alfabetizados, ou seja, aqueles capazes de ler, interpretar e produzir textos complexos, permanece em torno de apenas 10%. Em outras palavras, apenas um em cada dez brasileiros domina plenamente a leitura e a escrita. É pouco, sobretudo para um país que pretende desenvolver tecnologia, ciência e pensamento crítico.

As consequências são visíveis. Pessoas que não interpretam o que leem se tornam presas fáceis de desinformação, propagandas enganosas e discursos simplistas. O analfabetismo funcional corrói silenciosamente a democracia, pois reduz a capacidade do cidadão de compreender leis, propostas políticas e notícias. Na prática, grande parte da população vota, consome e opina com base em fragmentos mal compreendidos.

O episódio inicial do simples elogio à correção de uma narração é apenas um retrato disso. A surpresa diante de um texto ou fala bem construídos demonstra o quanto a comunicação correta virou exceção. A reação apressada de defesa, por sua vez, revela que a interpretação perdeu espaço para o instinto. O Brasil avançou na escolarização, mas não na alfabetização efetiva, com leitura profunda. Tem mais diplomas, mas menos compreensão. Enquanto o país continuar confundindo leitura com decodificação, opinião com argumento e emoção com raciocínio, continuará preso à ilusão de que está alfabetizado.

Talvez o problema não seja o argumento, e sim a alfabetização, como dizem por aí.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

 

relacionados

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Fique conectado

667FãsCurtir
756SeguidoresSeguir
338SeguidoresSeguir
- Publicidade -spot_img

Últimos artigos