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segunda-feira, maio 18, 2026

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Brasília e sua polícia do “Deus me livre!”

Marcos Machado

Ligar para o 190 em Brasília, em pleno andamento de uma ocorrência criminal, passou a ser quase um exercício de fé cívica. Você disca esperando uma viatura ou alguma demonstração de que o Estado ainda monopoliza o uso legítimo da força. Em troca, recebe demora ou a sensação de que incomodou alguém durante o café da manhã de domingo. Quase um acinte.

A experiência de moradores de Brasília-DF tem consolidado uma percepção cada vez mais desconfortável: a polícia aparece muito para a liturgia da presença e pouco para o enfrentamento do risco real. Sirenes, comboios, operações cinematográficas, interdições de trânsito, corridas coletivas atrapalhando o trânsito, eventos institucionais, campanhas motivacionais, redes sociais cheias de poses táticas e vídeos com música épica ao fundo. Quando o cidadão precisa da função elementar da segurança pública — proteger vidas e conter ocorrência em andamento —, a resposta parece entrar em modo de economia de esforço.

No domingo, 17 de maio, pela manhã, duas solicitações ao 190 foram feitas diante de uma ocorrência em andamento. Até agora, nenhuma resposta concreta. Nenhuma satisfação. Nenhum comparecimento. Nada. Absolutamente, nada. Nem mesmo um telefonema de retorno para dizer que não dá para correr riscos.

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Se não fosse a iniciativa de outro morador, disposto a agir e resolver o problema por conta própria, talvez a situação tivesse se prolongado indefinidamente. E o mais curioso é que nem mesmo depois disso houve interesse das autoridades em entender o que havia acontecido.

O cidadão liga para o Estado. O Estado terceiriza para a sorte. Seja o que Deus quiser!

Claro que os defensores automáticos do sistema correrão para explicar as dificuldades operacionais, o efetivo insuficiente, a burocracia, os protocolos, os riscos jurídicos, os direitos humanos, o estresse da tropa e a necessidade de preservar vidas — inclusive as dos próprios policiais, além, é claro, do conforto do ar condicionado e da poltrona reclinável. Aqui fora faz calor. Tudo isso é verdadeiro até certo ponto. O problema começa quando a prudência operacional vira cultura de omissão.

A impressão crescente é que parte da atividade policial moderna passou a funcionar sob a lógica do “evite complicações”. Se houver risco real, tensão real, possibilidade concreta de confronto, ou responsabilização administrativa, então a prioridade silenciosa parece ser outra: “Deus me livre!”.

E isso ajuda a explicar a nostalgia que muitos brasilienses mais antigos sentem ao lembrar da antiga GEB — a Guarda Especial de Brasília —, cuja simples menção intimidava marginais, fazia meliante se arrepiar. Não se trata de romantizar abusos ou defender brutalidade policial, como alguns intelectuais burocráticos gostam de caricaturar, mas de reconhecer que existia, ali, um elemento hoje raro: presença intimidatória efetiva, ou presença institucional inequívoca.

A cultura popular registrou isso. Na música de Renato Russo, a célebre “Veraneio Vascaína” simbolizava justamente o temor da chegada policial. Bastava a viatura dobrar a esquina para dispersar suspeitos e curiosos. Hoje, em muitos bairros, o cenário se inverteu: o cidadão é quem se pergunta se vale a pena esperar pela polícia ou resolver sozinho antes que o problema piore.

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E aí reside um perigo gravíssimo.

Quando o Estado falha repetidamente em exercer sua autoridade prática, a sociedade começa a desenvolver mecanismos paralelos de proteção. Vizinhos se organizam, grupos se articulam informalmente, moradores monitoram ruas, comerciantes criam redes próprias de vigilância. Oficialmente, qualquer sugestão mais incisiva nessa direção seria imediatamente classificada como ilegal ou “incentivo à justiça com as próprias mãos”, fora os riscos iminentes ao cidadão comum que paga pela polícia, mas não pode contar com ela. É exatamente esse vazio operacional que empurra a população para soluções improvisadas.

Nenhuma sociedade saudável deveria caminhar para isso.

Brasília possui uma das polícias mais bem remuneradas do país. A Polícia Militar do Distrito Federal recebe investimentos elevados e salários que estão entre os mais altos das forças estaduais brasileiras. Em teoria, isso deveria resultar em eficiência operacional exemplar, mas parte da população começa a perceber um contraste desconfortável entre remuneração e capacidade de resposta concreta. Parece que virou só mais um encosto público; aquele emprego que paga bem.

Talvez fosse útil um estágio intensivo em São Paulo, onde, apesar de todos os problemas gigantescos da criminalidade urbana, ainda existe maior percepção de presença operacional ostensiva em diversas regiões. Não porque a polícia paulista seja perfeita, mas porque o enfrentamento do crime exige disposição contínua para agir sob risco. Segurança pública não é concurso de coreografia militar em pista fechada.

E Brasília tem assistido a uma curiosa transformação estética da autoridade. Multiplicam-se corridas coletivas de policiais bloqueando vias públicas e atrapalhando o trânsito de quem teve um dia exaustivo no trabalho e só quer chegar logo em casa, ou treinamentos exibidos como espetáculo, slogans motivacionais e encenações de preparo físico que muitas vezes lembram mais um evento corporativo de qualidade de vida do que uma força voltada ao combate ostensivo da criminalidade. É quase um SPA. Enquanto isso, o cidadão comum segue esperando atendimento no 190.

A polícia não precisa voltar ao velho “prendo e arrebento”, frase eternizada durante o regime militar, mas também não pode escorregar para o extremo oposto: a polícia ornamental, burocrática, receosa e excessivamente preocupada em evitar desgaste institucional.

Porque, no fim, o cidadão não financia uma força pública para assistir corridinhas sincronizadas no asfalto. Ele espera proteção. Espera resposta. Espera presença. Espera que, ao ligar para o 190 diante de uma infração em andamento, alguém apareça.

Quanto ao fato específico, dois moradores destemidos foram resolver, apesar dos riscos iminentes e do despreparo específico policial.

A polícia? Sabe Deus lá quando virá. E se virá.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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