Marcos Machado
Dizem que ele fugiu, mas será mesmo covardia recuar diante de um adversário que controla o terreno e não demonstra disposição para respeitar os limites do confronto e da lei? Talvez a fuga seja apenas a interpretação conveniente de quem confunde prudência com fraqueza. Na estratégia, sobreviver pode ser a condição indispensável para continuar lutando.

A Bíblia conta que Davi, depois de derrotar Golias com uma pedrada e conquistar prestígio entre os israelitas, tornou-se alvo da inveja e da perseguição do rei Saul. O cântico popular que celebrava os feitos dos dois guerreiros despertou a ira do monarca: “Saul feriu os seus milhares, porém Davi, os seus dez milhares” (1 Samuel 18:7).
O reconhecimento popular do jovem guerreiro passou a representar uma ameaça à autoridade do rei. Saul, que já havia sido advertido pelo profeta Samuel de que perderia o reino, enxergou em Davi um possível sucessor e decidiu eliminá-lo. Tentou matá-lo com uma lança e mobilizou homens para vigiá-lo.
Davi fugiu não porque lhe faltasse coragem, mas por entender que permanecer naquele ambiente significava expor a própria vida à vontade de um governante que transformara a rivalidade em perseguição. Sobreviver era mais importante do que oferecer ao perseguidor a oportunidade de consumar seus propósitos.
Há, nesse episódio, uma lição que ultrapassa o campo religioso. Davi enfrentou Golias quando chegou a hora, mas recuou quando a situação exigiu prudência. Coragem e cautela são virtudes compatíveis. A primeira permite enfrentar o perigo; a segunda ajuda a reconhecer quando o enfrentamento imediato atende mais aos interesses do adversário do que aos próprios.

A mesma lógica aparece em A Arte da Guerra, de Sun Tzu, tratado clássico sobre estratégia militar. O pensador chinês ensina que a vitória depende, em grande medida, da capacidade de avaliar as circunstâncias e conhecer as próprias limitações evitando confrontos desfavoráveis. Retirar-se diante de um inimigo pode significar apenas recusar uma batalha cujo resultado favoreceria quem já controla as condições do combate.
Sun Tzu associa a eficácia do comando à capacidade de distinguir o momento de avançar daquele em que é necessário recuar. Um estrategista não precisa demonstrar força a cada instante. Buscar proteção e esperar uma oportunidade mais favorável são decisões que podem alterar o curso de uma disputa.
Essa concepção também encontra correspondência no pensamento de Carl von Clausewitz, em Da Guerra. Ao analisar a relação entre objetivos e meios, o estrategista prussiano demonstra que a ação militar deve ser associada às condições concretas em que ocorre. Insistir em um confronto sem condições adequadas pode transformar determinação em desperdício de forças. A prudência estratégica consiste em subordinar os movimentos imediatos aos objetivos que se pretende alcançar.
Na política, quando as condições para o exercício da oposição se tornam desfavoráveis e a permanência em determinado território representa um risco concreto, o afastamento pode ser uma medida de proteção. A distância física não implica abandono da causa, assim como a permanência não constitui, por si só, prova de heroísmo.
Davi, mesmo depois de escapar, não transformou a perseguição em justificativa para assassinar Saul quando teve oportunidade de fazê-lo (I Samuel 24:1-7). Sua trajetória acrescenta outra dimensão à estratégia: preservar a própria vida não exige reproduzir a conduta do perseguidor.
A história ensina que nem toda retirada é derrota, assim como nem todo avanço representa vitória. Há momentos em que recuar é a única maneira de evitar que a força do adversário determine o desfecho. O estrategista se retira por compreender os riscos e para poder aguardar condições melhores.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. I Samuel, capítulos 18, 19 e 24. Passagens sobre a perseguição de Saul a Davi, sua fuga e a recusa de Davi em matar o rei.
CLAUSEWITZ, Carl von. Da Guerra (Vom Kriege). 1832. Obra clássica sobre estratégia, objetivos políticos e emprego da força.
SUN TZU. A Arte da Guerra. Tratado clássico de estratégia militar, tradicionalmente atribuído ao general chinês Sun Tzu.


