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quinta-feira, outubro 1, 2026

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O “morno” será vomitado

Marcos Machado

Dante Alighieri, na Divina Comédia, reserva aos chamados ignavi, aqueles que, em vida, não foram nem fiéis nem rebeldes, e se recusaram a assumir posição diante do bem e do mal, um lugar particularmente desprezível: o vestíbulo do Inferno. São as almas daqueles que jamais tiveram coragem de tomar partido, perseguidas por insetos e condenadas a correr atrás de uma bandeira que nunca chega a lugar algum. No popular: os omissos.

A imagem literária de Dante encontra, séculos antes, uma advertência ainda mais direta nas Escrituras. No Apocalipse, ao se dirigir à igreja de Laodiceia, condena-se precisamente a condição de quem não assume uma posição: “Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente. Melhor seria que você fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca” (Apocalipse 3:15-16).

No contexto bíblico, a passagem não trata especificamente de eleições ou de disputas partidárias, mas da postura espiritual de uma comunidade que perdeu o fervor e a disposição de assumir aquilo que afirma professar. Aplicá-la à atuação pública de lideranças religiosas é, portanto, uma interpretação do princípio, não uma transposição literal do texto bíblico.

É justamente aí que a discussão ganha importância às vésperas das eleições brasileiras de 2026. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro e, se necessário, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, 158.765.543 eleitores estão aptos a votar.

Aqui, não se exige que padres, pastores, bispos ou qualquer outra liderança religiosa indiquem candidatos ou transformem o púlpito em palanque eleitoral. O ponto é outro: se determinada liderança entende que sua fé estabelece princípios morais para a vida em sociedade, até onde vai sua responsabilidade de explicitar esses princípios quando eles são colocados em confronto com escolhas políticas concretas?

A questão é primordial para o cristianismo porque a própria tradição bíblica não apresenta a fé como uma experiência restrita à esfera privada ou meramente etérea. Justiça, verdade, honestidade, responsabilidade, defesa da vida, liberdade e responsabilidade individual aparecem reiteradamente como temas de natureza moral. O cristão pode divergir sobre a maneira como esses princípios devem ser traduzidos em políticas públicas, mas dificilmente pode sustentar que eles não tenham qualquer consequência para a vida pública.

Uma liderança religiosa pode exortar seus fiéis a refletirem sobre determinadas questões sem transformar essa orientação em propaganda eleitoral. Da mesma forma, pode defender a participação política sem indicar candidato. O que não deveria fazer é se esconder atrás de uma suposta neutralidade para não dizer aquilo que sua própria doutrina ensina, ou lançar sobre o Divino a responsabilidade de uma escolha que também exige consciência humana.

A própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em mensagem divulgada em junho de 2026, convocou os cidadãos a participar conscientemente das eleições e a considerar, entre outros aspectos, a trajetória dos candidatos e as consequências de seus compromissos. O documento também abordou corrupção, compra de votos, uso indevido de recursos públicos, disseminação deliberada de notícias falsas, abuso do poder econômico e político, violência e respeito ao Estado Democrático de Direito.

Ou seja, a CNBB não precisou dizer em quem o eleitor deve votar para falar de política. E talvez esteja aí uma lição elementar que parte das lideranças religiosas ainda não compreendeu: discutir princípios não é o mesmo que fazer campanha.

A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) mantém uma posição histórica de incompatibilidade entre o marxismo, entendido como corrente fundada em pressupostos materialistas e ateístas, e a doutrina bíblica e os seus símbolos de fé. Em 2026, o Supremo Concílio voltou a reafirmar essa posição, ao mesmo tempo em que registrou expressamente que ela não constitui catálogo de partidos nem autorização para disciplina automática de ministros ou membros por filiação partidária. A resolução também exortou pastores, presbíteros, conselhos, presbitérios e sínodos a instruírem os fiéis sobre cosmovisões consideradas incompatíveis com a fé cristã reformada, preservando a não partidarização da Igreja.

Isso demonstra que neutralidade partidária não precisa significar neutralidade moral. E essa talvez seja a distinção que falta em parte do debate religioso brasileiro.

Uma liderança pode não recomendar “vote em fulano”, mas pode dizer: “Como cristãos, devemos levar em consideração a defesa da vida”; “a mentira é incompatível com a fé que professamos”; “a corrupção não pode ser tolerada”; “a liberdade religiosa deve ser preservada”; “a dignidade humana não pode ser relativizada”; ou ainda: “determinadas propostas políticas são incompatíveis com os princípios que esta comunidade ensina”.

Isso não é necessariamente interferência eleitoral. Pode ser, dependendo da forma e do contexto, exercício de responsabilidade pastoral.

E há uma diferença importante entre discernimento e partidarismo. O primeiro exige reflexão; o segundo exige adesão. Uma igreja não precisa distribuir santinhos para lembrar aos seus fiéis que há escolhas políticas que entram em choque com aquilo que ela própria ensina.

E mais: diz o velho adágio popular que quem se mistura aos porcos farelo come. Ou seja, aquela pessoa “gente boa”, simpática, sorridente e aparentemente inofensiva pode estar atrelada a compromissos políticos absolutamente incongruentes com a fé cristã. Carisma, simpatia e boa conversa não são certificados de coerência moral.

O problema começa quando a preocupação em não desagradar se transforma em silêncio diante de questões que a própria liderança considera fundamentais.

É correto afirmar que Karl Marx fez uma crítica radical à religião. Na introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, publicada em 1844, Marx escreveu que “a religião é o ópio do povo”. Mais do que uma frase isolada, o texto desenvolve uma crítica estrutural à religião e defende a superação daquilo que Marx entendia como uma forma de alienação. Portanto, a oposição entre o pensamento marxiano e a concepção cristã de religião não é uma invenção nem uma interpretação criada para fins eleitorais. Está no próprio texto de Marx.

No caso do marxismo clássico e do comunismo dele derivado, a tensão com a fé cristã é evidente. É justamente por isso que uma liderança religiosa que ensina a seus fiéis determinada concepção de homem, de Deus, de moral e de sociedade não pode fingir que essas diferenças desaparecem quando chega a hora de votar.

A questão não é obrigar o cristão a votar em determinado candidato, mas exigir coerência entre aquilo que se ensina dentro da igreja e aquilo que se reconhece como consequência desses ensinamentos fora dela.

Quando o silêncio deixa de ser prudência?

É legítimo que uma igreja não queira transformar seus templos em comitês eleitorais. É legítimo também que diferentes cristãos façam escolhas eleitorais diferentes. A consciência individual não desaparece porque alguém ocupa um púlpito.

Uma pergunta, porém, permanece: qual é a responsabilidade de uma liderança que ensina determinados valores durante todo o ano e se cala justamente quando esses valores entram em choque com decisões concretas da sociedade?

É possível defender a liberdade de consciência e, simultaneamente, exortar os fiéis à responsabilidade. É possível rejeitar o partidarismo e, ao mesmo tempo, discutir ideias. É possível não indicar candidatos e, ainda assim, dizer claramente quais princípios devem orientar a escolha.

A omissão deliberada é outra coisa.

Quando uma liderança religiosa passa o ano inteiro dizendo que a verdade importa, que a vida importa, que a família importa, que a honestidade importa, que a liberdade importa e que a dignidade humana importa, mas, chegada a hora em que esses princípios são confrontados politicamente, decide que é melhor não se comprometer, surge uma pergunta incômoda: o silêncio é prudência ou conveniência?

Porque há um tipo de prudência que nada mais é do que medo com roupa de virtude.

Dante colocou os omissos no vestíbulo do Inferno, recusando-lhes até mesmo a dignidade de serem considerados propriamente condenados. A Bíblia, por sua vez, utilizou uma imagem ainda mais contundente para caracterizar a tibieza espiritual: o morno que provoca repulsa.

São referências de épocas, gêneros e contextos completamente diferentes. Uma é literatura medieval; a outra, texto religioso. Mas ambas podem servir como advertência para uma questão que continua atual: há momentos em que a neutralidade não é prudência, mas renúncia à responsabilidade de dizer aquilo que se acredita ser verdadeiro.

Para uma liderança religiosa, essa responsabilidade é ainda maior. Quem sobe ao púlpito para orientar consciências não pode reivindicar apenas os benefícios da autoridade espiritual e desaparecer quando chega a hora de enfrentar as consequências públicas dos valores que ensina.

Não cabe à igreja escolher pelo eleitor. Cabe-lhe, porém, oferecer os princípios pelos quais o eleitor deverá responder à própria consciência.

E talvez seja justamente essa a obrigação que alguns estejam tentando terceirizar para Deus. É mais confortável dizer “cada um que escolha” do que explicar ao fiel quais são as consequências morais das escolhas possíveis. Afinal, se tudo é colocado na conta da consciência individual, ninguém precisa se responsabilizar por ter ficado calado.

Consciência não é sinônimo de ausência de orientação. Liberdade não significa vácuo moral. E neutralidade não pode ser transformada em álibi para a omissão.

No fim, a advertência continua sendo a mesma, em duas linguagens e com séculos de distância: para Dante, havia aqueles que jamais tiveram coragem de tomar posição entre fidelidade e rebeldia; para o Apocalipse, há aqueles que não são nem frios nem quentes.

O problema do morno é que, diante da verdade que afirma professar, ele sempre encontra uma razão para permanecer em silêncio.

E pior: tenta transferir para Deus a responsabilidade que lhe foi outorgada.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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