Marcos Machado
“Toda vez que um banqueiro rouba com acinte, a coisa arde no rabo do contribuinte”. A frase foi dita em 1996, no Jornal do Lobo, quadro exibido dentro do programa humorístico Chico Total. Irônica, debochada e aparentemente exagerada para a época, ela continua assustadoramente atual. O Brasil parece ter aperfeiçoado apenas a tecnologia do escândalo, 30 anos depois. A velha conta continua chegando ao mesmo endereço: o bolso do cidadão.
O caso Banco Master-BRB é mais uma demonstração de que, neste país, quando a engenharia financeira dá certo, alguns poucos ganham fortunas. Quando dá errado, aparece a engenharia política para explicar por que alguém precisa pagar a conta.
O Banco Central liquidou extrajudicialmente o Banco Master em novembro de 2025, depois de identificar, entre outras irregularidades, inconsistências em carteiras de crédito cedidas ao Banco de Brasília. Segundo o próprio BC, a fiscalização constatou a “insubsistência” dos ativos dessas carteiras e comunicou os ilícitos ao Ministério Público Federal.
Traduzindo do economês para o português do cidadão comum: havia créditos que deveriam valer dinheiro, mas que, segundo as investigações, não tinham lastro correspondente. É o tipo de mágica financeira em que o papel parece valer milhões até alguém perguntar onde está o dinheiro de verdade.
E aí aparece o BRB, banco público de Brasília-Distrito Federal, no meio do incêndio.
O problema não é pequeno. A crise levou o governo de Brasília a buscar uma operação de crédito de até R$ 6,6 bilhões para reforçar o banco. O Supremo Tribunal Federal chegou a homologar, em maio, um acordo entre União, DF, Banco Central e BRB para viabilizar uma operação de reforço financeiro.
Mas o acordo não resolveu a novela. Em agosto, o Fundo Garantidor de Créditos afirmou que sequer recebeu documentação suficiente para avaliar a operação e deixou claro que não era parte do acordo firmado no Supremo.
Eis o espetáculo: um banco público envolvido numa crise provocada por operações com um banco privado liquidado, o governo distrital correndo atrás de dinheiro para evitar que o problema se transforme numa catástrofe, o governo federal resistindo a oferecer garantias e o Supremo funcionando como uma espécie de sala de mediação para tentar descobrir quem vai pagar a conta.
O ministro Luiz Fux foi bastante claro ao afirmar que a Justiça não pode obrigar bancos ou a União a conceder garantias para o empréstimo. O Ministério da Fazenda, por sua vez, sustentou que o problema é regional e que um aval da União significaria socializar uma responsabilidade que, em sua avaliação, pertence ao Distrito Federal.
É uma posição que pode ser defendida tecnicamente. O que não pode é transformar uma discussão legítima sobre responsabilidade fiscal numa guerra de palanques.
Enquanto as instituições discutem quem deve assinar o cheque, políticos de ocasião descobrem uma oportunidade eleitoral extraordinária. Em vez de cobrar explicações sobre quem autorizou as operações, quem fiscalizou, quem deixou passar, quem ganhou e onde foram parar os recursos, aparecem discursos inflamados sobre “salvar o BRB”, “defender Brasília” e “enfrentar o governo federal”.
É a política brasileira em seu estado mais conveniente: quando chega a hora de assumir a responsabilidade, todos procuram o culpado mais distante. Quando chega a hora de aparecer diante das câmeras, todos querem ser o salvador da pátria.
O problema é que o BRB não precisa de salvadores de ocasião. Precisa explicar, em detalhes, como foram realizadas as operações com o Master. Precisa dizer quem aprovou os negócios, quais mecanismos de controle falharam, quais ativos foram adquiridos, quanto realmente valiam e qual é o tamanho efetivo da exposição do banco.
O próprio Senado realizou audiência para cobrar esclarecimentos sobre as operações entre BRB e Master, incluindo possíveis perdas, transparência das informações, gestão de riscos e mecanismos de controle.
E há uma pergunta ainda mais elementar: onde está o dinheiro?
Porque essa é a pergunta que deveria estar estampada em cada entrevista coletiva.
Cadê o dinheiro?
A pergunta não é retórica. A Operação Compliance Zero já produziu prisões, buscas, apreensões e bloqueios de patrimônio. Até maio, segundo levantamento da Agência Brasil, haviam sido expedidos 116 mandados de busca e apreensão e ordens de bloqueio e sequestro de bens próximas de R$ 27,71 bilhões.
Daniel Vorcaro, controlador do Master, está preso desde março. A investigação avançou sobre familiares, empresários, agentes públicos e suspeitas de corrupção e vazamento de informações. Em maio, uma fase da operação resultou em sete prisões preventivas de pessoas apontadas pela PF como integrantes de um grupo contratado para interferir nas investigações.
Mas isso não elimina a pergunta principal. Prender é uma coisa. Recuperar o dinheiro é outra.
E é aí que a história começa a ficar realmente interessante.
Investigações recentes procuram rastrear patrimônio no exterior. O liquidante do Master já busca informações sobre imóveis, contas e empresas relacionadas a Vorcaro e seus sócios nos Estados Unidos. Uma holding ligada ao ex-banqueiro, nas Ilhas Cayman, também entrou no radar após suspeitas envolvendo transferências superiores a R$ 700 milhões.
Como se não bastasse, a Polícia Federal apreendeu, no Paraguai, um jatinho de Vorcaro avaliado em cerca de R$ 120 milhões. A aeronave continuou realizando voos internacionais mesmo depois da prisão do ex-banqueiro.
É difícil não perguntar: se existem aviões, imóveis, holdings, contas, empresas, obras de arte e outros ativos espalhados pelo mundo, por que ainda precisamos discutir quem vai colocar dinheiro novo para tapar o buraco?
Primeiro se encontra o dinheiro. Depois se cobra de quem deve. Só então se discute o tamanho da conta pública.
O cidadão brasileiro já conhece a ordem inversa. Primeiro aparece a conta. Depois aparece o imposto. E, muito tempo depois, talvez apareça o responsável.
O caso fica ainda mais grave porque as investigações apontam para suspeitas de infiltração justamente onde deveria existir uma das maiores barreiras de proteção do sistema financeiro. Um diretor do Banco Central relatou à Polícia Federal que dois servidores do órgão teriam resistido a determinadas medidas de fiscalização relacionadas ao Master e são suspeitos de terem recebido vantagens indevidas. Os dois foram afastados.
Ou seja: não estamos falando apenas de um banco que quebrou.
Estamos falando de um sistema de fiscalização que precisa explicar como determinadas operações foram realizadas, de gestores que precisam prestar contas, de órgãos públicos que precisam demonstrar que exerceram suas funções e de investigadores que precisam chegar ao destino final dos recursos.
Estamos falando de dinheiro público.
Por isso, transformar o episódio numa disputa eleitoral entre Brasília e governo federal é uma redução conveniente demais. O Distrito Federal precisa, sim, defender o BRB se entender que sua sobrevivência é estratégica para a economia local. O governo federal precisa, sim, explicar objetivamente quais são os critérios técnicos para conceder ou negar garantias. E os dois lados precisam apresentar responsabilidades.
O que não serve ao cidadão é a velha encenação: de um lado, o governo local posando de vítima; do outro, o governo federal posando de fiscal da responsabilidade; no meio, políticos aproveitando o incêndio para montar o palanque.
Enquanto isso, a pergunta continua sem resposta satisfatória:
Cadê o dinheiro?
Não adianta apenas prender o banqueiro. Não adianta bloquear bens. Não adianta anunciar operações policiais com nomes pomposos. Não adianta convocar audiência, abrir comissão, fazer discurso inflamado ou produzir vídeos para redes sociais.
O dinheiro precisa aparecer.
E, se alguém desviou, fraudou, facilitou, encobriu ou se beneficiou, precisa responder por isso, dentro da lei.
Porque o contribuinte brasileiro já está cansado de ser o personagem final dessa comédia de mau gosto. Em 1984, Chico Anysio fazia graça com a ideia de que o prejuízo do banqueiro terminava no contribuinte. Em 2026, a piada perdeu a graça.
O banqueiro pode até mudar de banco, de empresa, de avião ou de país.
O contribuinte, não. Ele continua aqui, e continua pagando.
Cadê o dinheiro?
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


