Marcos Machado
O Nordeste brasileiro continua sendo o retrato mais contundente de uma contradição que o país parece ter se acostumado a tratar como destino: uma região de enorme riqueza cultural, potencial econômico e recursos naturais, mas que permanece com parcela expressiva de sua população dependente de programas de expropriação e transferência de renda. E, quando a pobreza se transforma em rotina, há sempre quem descubra nela uma extraordinária oportunidade política.
Os números ajudam a dimensionar o problema. O Nordeste concentra 51,5% dos beneficiários do Bolsa Família, segundo estudo baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE. A concentração não é recente nem episódica. Dados oficiais do próprio governo mostram que, em diferentes meses, a região reúne 9,4 milhões de famílias no programa e recebe cerca de R$ 6,4 bilhões mensais. Em julho de 2026, o benefício médio nacional estava em R$ 679,19.
A Bahia é o estado com o maior volume de recursos do Nordeste e do Brasil, recebendo sozinha cerca de R$ 1,6 bilhão por mês para sustentar mais de 2,4 milhões de famílias.
Não há nada de errado, evidentemente, em socorrer quem passa fome. Uma sociedade civilizada não abandona seus necessitados à própria sorte. O problema começa quando a emergência se transforma em modelo permanente, quando a transferência de renda deixa de ser ponte para a autonomia e passa a funcionar como substituto de políticas capazes de produzir emprego, produtividade, educação de qualidade e oportunidades.
O Nordeste abriga pouco mais de um quarto da população brasileira, mas concentra mais da metade dos beneficiários do principal programa de expropriação e transferência de renda do país. A desproporção deveria servir para provocar uma pergunta incômoda: por que, depois de décadas de políticas públicas, tantos milhões continuam precisando da mesma ajuda para sobreviver?
A renda que não muda a vida
O Bolsa Família cumpre uma “função social” ao garantir renda mínima a famílias em situação de miséria recorrente, mas transferência de renda não é sinônimo de desenvolvimento.
O dinheiro que chega ao município movimenta o comércio local, paga comida, remédio, gás e outras necessidades básicas.
A questão é outra: quanto tempo uma população pode permanecer dependente de transferências de dinheiro expropriado da parcela produtiva da sociedade, sem que isso seja considerado um fracasso das políticas de desenvolvimento?
É aí que a discussão deixa de ser apenas econômica e passa a ser política.
Uma região onde milhões dependem mensalmente de uma verba federal está diante de uma emergência social. Mas também oferece aos políticos uma ferramenta poderosa de controle simbólico: o governante aparece como aquele que “dá” o benefício, enquanto o cidadão, muitas vezes, passa a enxergar a política pública como favor pessoal do político de plantão.
E é nesse terreno que o velho coronelismo encontra uma roupagem nova.
O coronel mudou de roupa
O coronelismo brasileiro não nasceu com o Bolsa Família, bem menos é uma característica exclusiva do Nordeste. É uma estrutura histórica de poder local que atravessou a República e que foi estudada magistralmente por Victor Nunes Leal em Coronelismo, enxada e voto, publicado em 1949.
Leal mostrou que o coronelismo não era simplesmente o domínio arbitrário de um fazendeiro sobre determinada região, mas uma relação de troca entre o poder privado local e o poder público, sustentada pela dependência econômica e pelo controle político. A obra se tornou um dos clássicos da ciência política brasileira justamente por demonstrar como o poder local conseguia se articular com as estruturas da República.
O coronel de hoje já não precisa usar patente da Guarda Nacional ou controlar jagunços. O mecanismo pode ser muito mais sofisticado.
Antes, oferecia-se proteção em troca de voto. Hoje, pode-se oferecer acesso a programas, empregos públicos, contratos, obras, favores administrativos e uma infinidade de benefícios mediados por estruturas políticas locais.
A dependência apenas mudou de forma.
É nesse ponto que a miséria se torna politicamente conveniente. Quanto maior a vulnerabilidade, maior a importância daquele que controla o acesso aos recursos. Quanto menor a autonomia econômica do cidadão, maior o poder de quem distribui as oportunidades.
A velha indústria da pobreza
Antônio Callado percebeu essa engrenagem muito antes de a expressão “política de transferência de renda” entrar no vocabulário nacional. Nas reportagens que produziu sobre o Nordeste no fim dos anos 1950, publicadas no Correio da Manhã e posteriormente reunidas em Os industriais da seca e os “galileus” de Pernambuco, o jornalista investigou as relações entre pobreza, seca, poder político e interesses econômicos. Estudos acadêmicos sobre a obra destacam justamente sua abordagem das estruturas políticas e sociais do campo nordestino e das Ligas Camponesas.
A expressão “industriais da seca” denuncia uma perversidade antiga: a transformação da calamidade em negócio e da pobreza em instrumento de poder.
A seca deixava de ser apenas fenômeno climático e passava a ser também oportunidade política.
Décadas depois, seria ingenuidade imaginar que todas as formas de exploração política da pobreza desapareceram simplesmente porque os instrumentos mudaram.
O coronelismo atual pode dispensar o coronel. Basta conservar a dependência.
Patrimônio eleitoral
A crítica deve ser dirigida ao sistema que se acomoda à pobreza. Porque uma coisa é combater a miséria, outra, completamente diferente, é administrar a miséria como se ela fosse uma política de desenvolvimento. O primeiro busca emancipar, o segundo administra a dependência.
O problema não está em entregar R$ 600, R$ 700 ou qualquer outro valor a uma família que não consegue colocar comida na mesa. Chega a ser um valor irrisório se comparado ao volume dos desvios, fraudes e outros “mimos” que oneram o cidadão brasileiro. O problema está em aceitar que, décadas após décadas, milhões de famílias continuem precisando desse dinheiro sem que a política pública consiga transformar significativamente as condições que produziram aquela dependência.
É a diferença entre oferecer uma saída e oferecer uma permanência.
Assistência ou destino
O Brasil precisa decidir se quer combater a pobreza ou simplesmente administrá-la.
Se o objetivo for realmente transformar a vida do nordestino, a prioridade deveria estar em educação básica de qualidade, formação profissional, infraestrutura, segurança jurídica, saneamento, acesso à água, atração de investimentos, industrialização, agricultura tecnificada e criação de empregos capazes de substituir gradualmente a dependência das transferências.
O dinheiro público, que nada mais é do que o dinheiro do contribuinte, precisa servir para abrir portas, não para manter portas fechadas.
A assistência social deve existir. Deve ser ampla quando necessária e rigorosa na identificação de quem realmente precisa dela e precisa estar associada a uma estratégia de emancipação econômica. E vamos esclarecer: necessidade é diferente de indolência. É preciso separar o não poder trabalhar, do não querer.
Caso contrário, corre-se o risco de reproduzir, com instrumentos modernos, uma velha lógica política: manter o pobre suficientemente dependente para que o poderoso continue sendo indispensável.
O coronelismo clássico precisava do eleitor dependente e politicamente controlável. O coronelismo moderno pode encontrar no cidadão dependente do Estado uma versão atualizada dessa mesma relação de poder.
Não há mais a enxada diante do coronel, nem necessariamente o voto declarado em troca de um favor. Há o cadastro, o benefício, a prefeitura, a máquina partidária e a promessa de que, sem determinado grupo político, a ajuda poderá desaparecer.
Mudaram os instrumentos. A lógica, em certos lugares, permanece assustadoramente familiar.
O Nordeste não precisa de pena. Precisa de oportunidades. Não precisa de políticos eternamente dispostos a administrar sua pobreza. Precisa de governantes capazes de reduzi-la.
Porque pão é necessário, mas pão sem caminho para a autonomia vira apenas sobrevivência. E circo, quando usado para esconder a miséria, deixa de ser entretenimento e passa a ser anestesia.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


