Marcos Machado
O brasileiro é um crente. Não necessariamente religioso, embora também o seja, mas um crente no sentido mais puro e cego do termo: acredita. Acredita no que quer, no que convém, no que alivia. Crê que sabe, crê que entende, crê que o sujeito é inocente mesmo com a faca na mão, o corpo estendido no chão e a filmagem em HD. Acredita porque, no fundo, precisa acreditar.
Esse é um tema antigo, mas nunca foi tão atual: a diferença entre o fato, a verdade e a crença. A confusão entre essas três categorias é um dos sintomas mais agudos da nossa época, mas no Brasil ela ganha contornos quase mitológicos. Como explicar, por exemplo, o fenômeno de alguém defender ardorosamente um político corrupto que já devolveu parte do dinheiro roubado? Como pode alguém contestar aquilo que está registrado em vídeo, áudio e depoimento cruzado?
Quando não havia redes sociais, nem internet, e a verdade era o que se propalava nos jornais e noticiários da tevê e do rádio, a gente até entende, mas agora, com o volume de informações, a rapidez com que se propagam e a quase impossibilidade de omitir e sustentar mentiras… Realmente, é problema psíquico.
Fato é aquilo que ocorre no mundo objetivo. Aconteceu. Está lá. Pode ser medido, registrado, fotografado, periciado. É impessoal. Um avião caiu. O exame deu positivo. O corpo foi encontrado.
Verdade é uma narrativa coerente que se tenta construir a partir dos fatos. É interpretativa, relacional. A verdade depende do enquadramento, da análise, da honestidade intelectual. É o esforço de dar sentido ao fato. Pode haver mais de uma versão da verdade, mas o fato permanece intocado.
a verdade, outrora filha do rigor, vira prima da opinião
Crença, por sua vez, é pessoal, subjetiva, emocional. Independente de provas ou da lógica, é aquilo em que alguém escolhe acreditar, muitas vezes apesar das evidências. É aqui que o brasileiro, mestre da autoilusão, se destaca. A crença tem sua lógica própria, sua resistência interna. Ela protege o ego, fortalece o grupo e constrói uma bolha de realidade onde o sujeito vive em paz com suas contradições.
Essa distinção, da diferença entre fato, verdade e crença, foi abordada de formas distintas por filósofos, cientistas e psicanalistas. Hannah Arendt, por exemplo, falou sobre os fatos verdadeiros sendo substituídos por verdades fabricadas nas sociedades totalitárias. Para ela, a manipulação da realidade começa quando se despreza o fato e se privilegia a crença coletiva.
Karl Popper, filósofo da ciência, insistia que o conhecimento deve ser falsificável, ou seja, um fato deve poder ser testado e refutado, caso contrário não é ciência, é dogma.
Na cultura popular, o bordão “cada um tem sua verdade” virou um álibi para a negação dos fatos. Aqui a coisa degringola: a verdade, outrora filha do rigor, vira prima da opinião.
Na psiquiatria, essa insistência em acreditar no que se opõe frontalmente à realidade pode ser um traço de transtorno delirante, quando há uma crença fixa, incorreta, que resiste a qualquer confronto com os fatos. Não se trata apenas de opinião, mas de uma convicção patológica. Também pode haver relação com mecanismos de defesa, como a negação — muito comum em traumas, perdas ou situações que geram dissonância cognitiva (quando o que se vê não bate com o que se quer sentir).
É mais fácil acreditar no delírio do que lidar com a angústia da realidade
Em um país como o Brasil, onde a realidade é muitas vezes insuportável, o uso psicológico da crença é quase terapêutico. A crença é a muleta psíquica de quem não quer cair no abismo do real.
Freud, o pai da Psicanálise, explicaria que a crença é um mecanismo de defesa do ego. Quando o sujeito é confrontado com algo que ameaça seu sistema simbólico, ele recorre à racionalização ou à repressão. Freud também identificou que há um desejo inconsciente de manter certas crenças mesmo que elas sejam conscientemente falsas. Para o inconsciente, a verdade pode ser insuportável. É mais fácil acreditar no delírio do que lidar com a angústia da realidade.
A psicanálise lacaniana vai além: o sujeito não quer saber a verdade, quer gozar com o seu sintoma. Em outras palavras, não é ignorância: é escolha.
O Brasil se torna cada vez mais um país onde os fatos são opcionais, a verdade é manipulável, e a crença é soberana. Não importa o que foi dito, gravado, filmado, confessado. Importa o que eu acredito, e ponto. Nesse pântano de certezas autoconstruídas, os debates viram guerras de fé. A política se transforma em seita, e a realidade vai sendo empurrada para debaixo do tapete, junto com a esperança de que um dia a lucidez volte a ser mais sedutora que a ilusão.
Por ora, seguimos crentes. Crentes que somos racionais. Crentes que sabemos das coisas. Crentes que, se Deus quiser, tudo vai dar certo, mesmo que os fatos digam o contrário.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira


