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terça-feira, julho 21, 2026

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Quando é que o bem triunfará?

Marcos Machado

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A história humana registra, em seus ciclos mais incômodos, a inversão completa de valores: homens maus exaltados, homens bons humilhados, como se a bússola moral coletiva tivesse sido jogada ao chão. O Brasil assiste, perplexo, a um movimento que muitos consideram uma escalada autoritária conduzida à margem da Constituição, do devido processo legal e do tão proclamado, quanto negligenciado, Estado Democrático de Direito. A advertência do filósofo inglês John Locke, de que a liberdade é o direito de estar livre de qualquer poder arbitrário, parece ter sido esquecida justamente por aqueles que deveriam encarná-la.

Há uma massa silenciosa, quase apática, que observa tudo com a indiferença preguiçosa descrita por Ortega y Gasset ao falar das sociedades que abandonam seu próprio destino. Muitos se comportam como se não houvesse consequências, como se o futuro fosse uma abstração longínqua. Mas, como lembrava Hannah Arendt, a omissão política também é uma forma de ação e, frequentemente, a mais perigosa, pois permite que o poder avance sem resistência.

Se o motor desse comportamento é o dinheiro rápido, o poder efêmero e a glória duvidosa, convém lembrar a advertência do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. A finitude humana não é mero detalhe biológico; é o limite que deveria conter os delírios de grandeza. Os que hoje ocupam cargos de altíssima responsabilidade — velhos cansados, indolentes ou simplesmente acomodados — parecem ter esquecido a razão de existir do poder público: ordenar, guardar, proteger e promover o bem comum. Em vez disso, entregam-se à paralisia que Maquiavel já diagnosticava como fatal para os Estados que preferem a inércia ao risco de corrigir seus próprios erros.

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Esses personagens, que acumulam honrarias protocolares e fotografias em gabinetes, provavelmente não deixarão mais do que uma lembrança apagada em um porta-retratos empoeirado. A história costuma ser impiedosa com quem teve a chance de agir e escolheu cruzar os braços. Como ensinava Cícero, a injustiça não está apenas em fazer o mal, mas também em deixar de impedir que o mal seja feito.

Enquanto isso, a injustiça se robustece. Tolera-se o abuso, normaliza-se o arbítrio, e o mal, como escreveu Santo Agostinho, “avança sempre que o bem nada faz”. A pergunta, que é quase um clamor social, é simples e antiga: quando é que o bem triunfará? O maniqueísmo pode ser uma divisão simplificada do mundo, mas sua metáfora é útil quando a sociedade parece incapaz de distinguir luz e escuridão.

O Brasil atravessa um momento em que a vigilância democrática deixou de ser virtude e virou necessidade. Não se trata de nostalgia de um passado idealizado, mas de reafirmar que nenhum sistema político sobrevive se a Justiça se inclina, se a lei é elástica para uns e implacável para outros, e se a moral pública sucumbe diante do benefício pessoal. Como lembrava Montesquieu, “tudo estaria perdido se o mesmo homem, ou o mesmo corpo, exercesse os três poderes”. Não é apenas uma frase clássica; é um aviso permanente, que hoje repercute com desconfortável atualidade.

Entre o medo do autoritarismo e a descrença no sistema, resta ao país decidir se continuará espectador ou se retomará o protagonismo que as democracias exigem dos seus cidadãos. O futuro, afinal, nunca esteve tão próximo, e cobrará, cedo ou tarde, a conta da omissão; a coletiva e, especialmente, à quem foi delegado poder para deter o poder, mas preferiu lavar as mãos.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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