
O governo federal projeta que o salário mínimo de 2026 ficará entre R$ 1.627 e R$ 1.631, segundo estimativas enviadas ao Congresso pelo Ministério do Planejamento e confirmadas por reportagens. A previsão oficial representa um reajuste pífio em relação aos R$ 1.518 definidos para 2025, aumento que, na prática, não acompanha o custo real de vida do trabalhador brasileiro.
A disparidade fica escancarada quando comparada com o cálculo do Dieese. De acordo com levantamento recente citado pelo portal Click Petróleo e Gás, um salário mínimo realmente capaz de suprir as necessidades básicas de alimentação, transporte, moradia, saúde, educação, vestuário e lazer, exatamente como definido na concepção original do salário mínimo, deveria ser de R$ 7.075,83. Ou seja: quase quatro vezes e meia o valor projetado pelo governo.
A distância entre os números oficiais e a realidade cotidiana explica por que o trabalhador sente que seu dinheiro “desaparece” antes do fim do mês. Embora o governo argumente que está garantindo “ganho real” ao aplicar a política de correção baseada na inflação medida pelo INPC mais a variação do PIB, a fórmula não reflete o que acontece no caixa do supermercado, no preço do botijão de gás nem no aluguel das grandes cidades.
Isso ocorre porque a política pública se apoia na inflação oficial, e não na inflação que o consumidor sente, a chamada inflação percebida. É a diferença entre o índice calculado pelo IBGE e o impacto concreto de tentar colocar comida na mesa. A cesta de consumo real das famílias, mais pesada em alimentos, transporte e energia, sofre aumentos superiores à inflação média. Por isso, mesmo quando o salário mínimo tem correção “acima da inflação”, o brasileiro comum continua se sentindo mais pobre.

A situação se agrava quando se observa que o próprio governo reduziu, recentemente, a previsão inicial dos R$ 1.631, que constavam em versões anteriores das projeções, para R$ 1.627, alegando “desaceleração da inflação”. O movimento evidencia o quanto o salário mínimo está atrelado a ajustes tecnocráticos e distante da realidade do trabalhador que precisa pagar transporte, luz, água, alimentação e ainda tentar garantir algum lazer para a família; parte essencial da definição constitucional do salário mínimo.
Especialistas lembram que mais de 70% dos benefícios previdenciários são calculados com base no piso nacional. Isso significa que cada centavo retirado da política de valorização do mínimo representa menos consumo, menos renda circulando e mais aperto no orçamento das famílias. Segundo o Click Petróleo e Gás, mesmo com o reajuste, o poder de compra deve seguir estagnado até 2026.
O Dieese, mais uma vez, cumpre o papel de revelar a assimetria entre a economia oficial do governo e a economia real da população: enquanto Brasília comemora um mínimo de R$ 1.627, o trabalhador sabe que continua vivendo com menos de um quarto do que precisaria para viver com dignidade.
No fim das contas, não é o salário mínimo que está “aumentando”, e sim está encolhendo. É o custo de vida que segue subindo em velocidade muito maior e o trabalhador, mais uma vez, paga a conta.


