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domingo, abril 19, 2026

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O mal por si se destrói: sabedoria ou ilusão?

*Marcos Machado

“O mal por si se destrói.” A frase soa como consolo para os justos, promessa de justiça tardia ou simples superstição disfarçada de sabedoria. Popular no senso comum, e evocada como argumento moral, a expressão ecoa tanto em textos religiosos quanto em reflexões filosóficas, mas quem a disse primeiro? Por que se diz isso? Até que ponto essa tese se sustenta?

Não há um autor inequívoco para a frase “o mal por si se destrói”. Atribuições populares sugerem origens bíblicas ou patrísticas (campo de estudo que se dedica ao pensamento e às obras dos Pais da Igreja, principalmente os que viveram do século II ao início do século VIII) mas a expressão exata não consta das Escrituras. Ainda assim, sua ideia é compatível com passagens do Antigo e Novo Testamento. No livro dos Provérbios (11:5), lê-se: “A justiça endireita o caminho do justo, mas o perverso cairá por sua impiedade.” Em outras palavras, o ímpio será vítima de sua própria maldade.

No Salmo 7:15-16, a metáfora é ainda mais explícita: “Ele cava um poço, aprofunda-o, e cai na cova que fez. Sua maldade se voltará contra ele; sua violência cairá sobre sua própria cabeça.”

Essa lógica circular — o mal gera consequências que recaem sobre o próprio malfeitor — é recorrente no pensamento hebraico, reforçando a ideia de um universo moralmente ordenado por Deus.

Confiar apenas na autodestruição do mal pode nos tornar espectadores passivos diante da injustiça

Nos evangelhos, Jesus ensina que “todo reino dividido contra si mesmo será destruído” (Mateus 12:25), sugerindo que o mal, por sua própria desordem interna, não se sustenta. Mais do que uma maldição, a autodestruição é quase uma lei espiritual.

Na filosofia clássica, a autodestruição do mal também aparece como possibilidade. Platão, por exemplo, argumenta em A República que o mal está associado à desarmonia da alma, e que uma alma desordenada tende à ruína. O bem, por sua vez, é harmonia, razão e equilíbrio — aquilo que sustenta a existência.

Santo Agostinho, um dos maiores pensadores cristãos, desenvolve a tese de que o mal não tem substância própria, sendo apenas a corrupção do bem. Em outras palavras, o mal é parasitário e, ao consumir o bem do qual depende, destrói a si mesmo. Essa ideia é também ecoada por Tomás de Aquino, que considera o mal como uma privação do ser. Assim, o mal, ao crescer, mina a própria estrutura que o sustenta.

Embora o mal seja autodestrutivo em essência, o bem precisa ser ativo em presença

Filósofos como Hegel e Kierkegaard também sugerem que sistemas fundados no erro ou na injustiça carregam em si a semente da própria queda. Para Hegel, a negatividade (mal, contradição, mentira) pode ser necessária no processo dialético, mas é sempre superada (aufgehoben) por uma síntese superior.

Apesar da robusta tradição que parece respaldar essa máxima, a realidade histórica é menos animadora. O mal, ou o que reconhecemos como tal, frequentemente sobrevive, se reinventa, assume novas máscaras. Impérios autoritários ruíram, sim, mas deixaram rastros de destruição. Figuras malignas foram vencidas, mas não sem causar danos irreparáveis. O mal nem sempre se destrói a tempo, e quase nunca sozinho.

Mais do que uma profecia infalível, “o mal por si se destrói” talvez deva ser lido como uma advertência ética e uma convocação à vigilância. Ele pode conter as sementes da própria ruína, mas isso não o impede de causar estragos antes de cair. Confiar apenas na autodestruição do mal pode nos tornar espectadores passivos diante da injustiça.

A frase tem raízes profundas na tradição ocidental, misturando teologia, filosofia e sabedoria popular. Ainda assim, sua validade prática é limitada. O mal, como mostram a história e a política, nem sempre colapsa sozinho, às vezes é preciso empurrá-lo. O consolo que a frase oferece não deve nos paralisar, mas nos lembrar de que, embora o mal seja autodestrutivo em essência, o bem precisa ser ativo em presença.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira

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