Os números mais recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostram que o endividamento das famílias brasileiras bateu novo recorde histórico em abril de 2026. Agora, 80,9% dos lares convivem com algum tipo de dívida. É o quarto mês consecutivo de recorde na série histórica. Em março, o índice já era alto, em 80,4%, mas voltou a subir.

O brasileiro olha para o noticiário oficial, escuta discursos sobre “economia aquecida”, “recorde de renda”, “mercado de trabalho forte” e “melhora dos indicadores”, mas quando abre a fatura do cartão de crédito encontra um país completamente diferente. A distância entre a narrativa otimista do governo e a vida concreta da população parece crescer na mesma velocidade do endividamento nacional. Enquanto o governo e os noticiários apresentam uma realidade paralela, a população sente a corda apertando o pescoço.

Isso significa que oito em cada dez famílias brasileiras estão dependentes de crédito para manter a rotina e até pôr comida no prato. E não se trata de crédito para investir, empreender ou adquirir patrimônio. O retrato dominante é outro: sobrevivência financiada.
O dado mais preocupante talvez não seja apenas o tamanho do endividamento, mas sua deterioração. Entre os brasileiros, 29,7% já possuem contas em atraso. Pior: 12,3% admitem que simplesmente não terão condições de pagar o que devem. É o estágio em que a dívida deixa de ser uma ferramenta financeira e se transforma em colapso econômico doméstico.
O grande protagonista dessa crise silenciosa continua sendo o cartão de crédito, apontado por 85% dos endividados como principal origem das dívidas. Em seguida aparecem carnês de lojas e crédito pessoal. O que isso revela é um padrão típico de economias pressionadas pela perda de poder de compra: o cidadão financia o supermercado, parcela o básico, adia o inevitável e tenta ganhar tempo enquanto os juros corroem a renda.
E os juros não são detalhe secundário nessa história. Com a taxa Selic em 14,75% ao ano, o crédito no Brasil permanece entre os mais caros do mundo. O resultado é previsível: famílias entram em uma espiral em que pagam juros sobre juros apenas para manter despesas correntes. A conta nunca fecha.

A situação é ainda mais grave entre os mais pobres. Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, 83,6% estão endividadas e 38,2% possuem contas atrasadas. É a base da pirâmide social funcionando permanentemente no limite financeiro. Entre aqueles que recebem acima de dez salários mínimos, o endividamento também cresceu, chegando a 70,8%, embora a inadimplência seja menor, de 15%. A diferença é simples: quem tem renda maior ainda consegue administrar a dívida; quem está na base apenas tenta sobreviver até o próximo vencimento.
Narrativa dissociada
Ao mesmo tempo, o governo apresenta outro retrato do país. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (aquele acusado de manipular dados para favorecer o governo) apontam que a renda média do trabalhador alcançou recordes em 2026. O rendimento médio chegou a R$ 3.722 no primeiro trimestre, com alta real de 5,5% em relação ao ano anterior, segundo o instituto. A massa salarial também atingiu números históricos, somando R$ 374,8 bilhões circulando na economia.
Segundo o discurso oficial, essa melhora seria consequência do aumento do salário mínimo, da queda do desemprego e da maior formalização do mercado de trabalho. Em tese, mais pessoas trabalhando e recebendo salários maiores deveriam produzir alívio financeiro nas famílias. Mas a realidade observada nos indicadores de inadimplência conta outra história.
A contradição é evidente: se a renda está tão forte quanto se afirma, por que o endividamento continua quebrando recordes? Se o poder de compra realmente melhorou, por que cresce o número de famílias incapazes de honrar contas básicas?

A resposta pode estar justamente no que os números médios escondem. O próprio IBGE admite que a desigualdade voltou a subir em 2026. Os 10% mais ricos tiveram crescimento de renda cerca de duas vezes maior que os mais pobres. Em outras palavras, a renda média sobe, mas isso não significa melhora proporcional para a maioria da população. É a estatística criativa, mais ou menos semelhante à contabilidade criativa do governo que esconde os rombos nas contas.
Médias estatísticas raramente traduzem a sensação cotidiana das famílias. O custo de vida continua pressionando brutalmente os brasileiros, especialmente em alimentação, aluguel, energia, transporte e serviços essenciais. O dinheiro até pode ter aumentado nominalmente, mas o orçamento desaparece antes do fim do mês.
É justamente aí que nasce a sensação de dissociação entre os números oficiais e a vida real. O cidadão escuta que “a economia melhorou”, mas continua parcelando comida no cartão. Ouve que “a renda bateu recorde”, enquanto recorre ao crédito para pagar contas básicas. Vê comemorações sobre indicadores macroeconômicos enquanto o orçamento doméstico opera em estado permanente de sufocamento.
O problema é que indicadores econômicos podem ser organizados para sustentar discursos políticos distintos. O governo enfatiza renda, emprego e massa salarial. As famílias percebem juros, inflação cotidiana, endividamento e perda de capacidade de consumo. Ambas as narrativas usam números que descrevem países diferentes.
Talvez o dado mais revelador não seja o crescimento da renda nem o aumento da massa salarial. O retrato mais honesto da economia brasileira talvez esteja justamente na explosão do endividamento. Porque poucos indicadores são tão sinceros quanto o comportamento financeiro das famílias. E quando oito em cada dez lares estão endividados, fica difícil convencer a população de que a prosperidade chegou.



