*Marcos Machado
Perdi mais um amigo, e perder um amigo é enfrentar um silêncio que fala mais alto que qualquer palavra. Desta vez, a notícia chegou como um golpe seco: aquele que parecia destinado a uma vida longa, saudável e repleta de energia, partiu de forma precoce. A lembrança que fica é a de uma pessoa íntegra, generosa, sempre pronta a estender a mão. Educado, divertido, simpático, empático; alguém que parecia feito para durar mais, cem anos, quem sabe…
Há mais de uma década o contato pessoal havia se perdido. Ele vivia fora do país, e a internet servia de ponte, ainda que frágil. Breves mensagens, telefonemas eventuais, trocas que sustentavam, à sua maneira, um tênue fio de amizade. Com o retorno recente ao Brasil, cresceu a esperança de um reencontro, de um café para pôr a conversa em dia. Mas, como tantas vezes acontece, a vida foi adiando, e a gente está sempre atolado em afazeres inúteis. O tempo, implacável, não deu tempo.
A morte, quando chega sem aviso, nos lembra daquilo que o filósofo romano Sêneca já alertava: “Não é que tenhamos pouco tempo, mas sim que perdemos muito dele.” As horas que se esvaem no adiamento, no “depois eu ligo”, no “qualquer dia a gente se vê”, acabam nos cobrando um preço alto.
O adeus inesperado é como a chama de uma vela que se apaga antes da hora, soprada por um vento inoportuno que entra por uma fresta esquecida. Resta o vazio de não ter dito o que precisava ser dito, de não ter vivido o que poderia ter sido vivido. Assim, do nada, a chama se apagou. Não houve tempo para um café, uma desculpa por qualquer coisa, uma explicação.
A vida é breve e instável. Os encontros, os abraços, as conversas não podem ser sempre adiados. Porque, às vezes, o tempo, o mesmo que acreditamos dominar, simplesmente não dá tempo.
A vida é um mistério, assim como a morte, e desvendar mistérios é a nossa praia. Descanse em paz.
Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


