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sexta-feira, junho 5, 2026

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A irritante praga do gerundismo

Marcos Machado

O gerúndio é uma forma verbal legítima da língua portuguesa. Termina em ‘-ndo’, como falando, correndo, vivendo, escrevendo e expressa uma ação em andamento. Está presente nos manuais de gramática, na literatura e no uso cotidiano. Porém, nas últimas décadas, esse recurso gramatical vem sendo distorcido em um vício de linguagem conhecido como gerundismo, que tomou conta do vocabulário corporativo, especialmente nos serviços de atendimento ao consumidor e nas mensagens automatizadas.

A diferença entre o uso correto do gerúndio e o gerundismo está no excesso. O problema não é dizer estou lendo um livro, o que indica uma ação em curso. O problema é afirmar, de forma artificial e forçada: “Vou estar encaminhando sua solicitação e o setor vai estar entrando em contato para estar solucionando o seu problema.” Trata-se de um acúmulo de formas verbais que transmite mais insegurança do que clareza. Em vez de compromisso com a ação, transmite enrolação e nada de eficiência.

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O uso compulsivo do gerúndio não é sinônimo de profissionalismo, ao contrário, desgasta a comunicação, gera ruído e causa fadiga em quem ouve como um zumbido de moscas. A sensação é de que o interlocutor está dizendo muito sem dizer nada, como se estivesse evitando assumir uma responsabilidade direta. O gerundismo virou uma espécie de biombo linguístico, por trás do qual se esconde a incapacidade de ser direto e assertivo.

Compare-se, por exemplo, a seguinte frase típica de um atendimento automatizado:

“Senhor, vou estar encaminhando seu pedido ao setor responsável, e eles vão estar entrando em contato em até dois dias úteis.”

Agora, veja a mesma frase, livre do gerundismo:

“Senhor, encaminharei seu pedido ao setor responsável. Em até dois dias úteis, eles entrarão em contato.”

A diferença é evidente. No segundo caso, a comunicação é precisa, objetiva e confiável. Já o primeiro exemplo mergulha o ouvinte num labirinto verbal onde nada começa nem termina. A linguagem perde sua função principal, a de informar, e passa a funcionar como cortina de fumaça.

A propagação do gerundismo não é apenas um modismo linguístico: é um reflexo da crise de clareza na comunicação. Em um cenário onde empresas e profissionais têm medo de se comprometer, a linguagem também recua. Em vez de dizer vou resolver, opta-se por vou estar resolvendo. Uma sutileza que, na prática, camufla a responsabilidade.

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É necessário reaprender a usar o gerúndio com discernimento. Ele tem seu papel e pode ser elegante, quando necessário, mas seu uso deve ser guiado pela utilidade, não pela afetação. A boa linguagem é aquela que serve ao pensamento e à ação, não aquela que os contorna indefinidamente.

Quem fala com clareza transmite confiança. O bom falante não “vai estar entrando em contato”: ele vai entrar em contato, e isso faz toda a diferença.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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