Nos últimos trinta anos, a forma como os brasileiros acessam a informação sofreu uma reviravolta histórica. Se no passado os noticiários da televisão e os jornais impressos ditavam o que era relevante, hoje essa função foi assumida pelas redes sociais e aplicativos de mensagens. A transição, silenciosa e gradual, alcançou o ponto de virada em 2013, quando as manifestações populares daquele ano mostraram que o fluxo da informação não dependia mais da imprensa tradicional.
A internet começou a funcionar no Brasil em 1991, inicialmente restrita a instituições de pesquisa e universidades. Foi somente em 1995 que a rede mundial de computadores foi liberada para uso comercial, abrindo espaço para a popularização da navegação digital. Ainda limitada pela conexão discada e por equipamentos caros, a internet no Brasil tinha, nos primeiros anos, uma função mais informativa e educacional. As redes sociais surgiram mais tarde, com o Orkut e, depois, o Facebook, mas com perfil predominantemente pessoal e recreativo.
Esse panorama começou a mudar com a consolidação dos smartphones, o avanço da banda larga e a viralização de conteúdos nas plataformas digitais. O estopim foi em junho de 2013, quando manifestações em diversas cidades brasileiras foram articuladas e amplificadas via redes sociais, sem intermediação dos grandes veículos. Pela primeira vez, as pessoas estavam se informando em tempo real diretamente umas com as outras; vídeos de celular, transmissões ao vivo e publicações em massa substituíram as reportagens editadas e os boletins oficiais.
Com o avanço da década, o papel da imprensa na mediação da realidade passou a ser questionado por uma parcela crescente da população. As redes sociais deixaram de ser espaços de lazer para se tornar arenas de disputa narrativa. A eleição presidencial de 2018 confirmou a nova lógica: a comunicação direta com o eleitor por meio do WhatsApp, Facebook e Twitter se mostrou mais eficaz, e mais poderosa, do que qualquer tempo de exposição nos noticiários televisivos.
Segundo pesquisas recentes, como a da Reuters Institute (2024), o Brasil é um dos países onde mais se consome informação via redes sociais. Dados da Ipsos, por sua vez, indicam que 75% da população desacredita da imprensa tradicional, acreditando que os veículos estão mais interessados em lucros e influência política do que na verdade. Esse índice revela não apenas uma crise de credibilidade, mas um deslocamento definitivo da centralidade da mídia para plataformas descentralizadas e, muitas vezes, opacas.
A consequência desse fenômeno: a democratização do acesso à informação e uma descentralização das vozes.
Se antes a informação era hierarquizada por critérios editoriais e de apuração muitas vezes duvidosos, manipuladas a fim de atender a interesses políticos e econômicos e viés ideológico, hoje ela é definida pelo alcance e pela capacidade de engajamento. O jornalista profissional, que deveria primar pela verdade, e não pela versão conveniente, compete agora com influenciadores, blogueiros e usuários comuns.
Diante disso, a imprensa tradicional busca se reinventar. Há esforços para reconquistar a confiança do público por meio da transparência editorial, do jornalismo investigativo e da checagem rigorosa de fatos, que deveria ser a base. Talvez seja tarde demais.
Em um cenário cada vez mais fragmentado, a pergunta que se impõe não é apenas onde está a verdade mas se, para muitos, ela ainda importa ao jornalismo tradicional.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade



