O governo vende o programa “Desenrola” como uma espécie de redenção financeira para milhões de brasileiros sufocados por dívidas. A propaganda é sedutora: limpar o nome, renegociar débitos e devolver dignidade ao cidadão. Mas cresce entre economistas, especialistas em crédito e entidades de defesa do consumidor a percepção de que o programa funciona mais como um paliativo eleitoral do que como uma solução estrutural para o problema do endividamento crônico no país. O brasileiro entra no Desenrola para sair do sufoco imediato, mas frequentemente retorna pouco tempo depois ao mesmo ponto — ou pior.

Os números mais recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostram que o endividamento das famílias brasileiras bateu novo recorde histórico em abril de 2026. Agora, 80,9% dos lares convivem com algum tipo de dívida. É o quarto mês consecutivo de recorde na série histórica. Em março, o índice já era alto, em 80,4%, mas voltou a subir.
A crítica central feita por especialistas, além de entidades como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, é simples: o programa atua apenas sobre o efeito da doença, jamais sobre suas causas. Limpa-se o CPF, mas se mantém intacto o sistema que produz inadimplência em massa.
O problema começa no próprio modelo bancário brasileiro. Cerca de 85% do crédito do país permanece concentrado nas mãos de apenas cinco grandes bancos, um cenário que reduz drasticamente a concorrência e ajuda a explicar os juros absurdamente elevados cobrados do consumidor. Enquanto o governo anuncia renegociações como vitrine social, o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial continuam operando com taxas que frequentemente ultrapassam 400% ao ano. O cidadão renegocia a dívida de ontem, mas continua exposto ao mesmo mecanismo que criará a dívida de amanhã.
Há também outro fator frequentemente ignorado no discurso oficial: o brasileiro não se endivida apenas por irresponsabilidade financeira, mas principalmente porque a renda já não cobre o básico. O custo de vida sobe, os salários perdem poder de compra e o crédito passa a funcionar como extensão artificial da renda familiar. Nesse cenário, o consumidor não usa cartão para luxo; usa para supermercado, gás, remédio e contas essenciais. Limpar o nome sem aumentar renda real equivale a enxugar gelo. A pessoa sai da inadimplência estatística, mas não da fragilidade econômica.
Outro ponto controverso é o chamado “risco moral”. Muitos analistas alertam para o efeito perverso de premiar maus pagadores enquanto penaliza quem fez sacrifícios para manter as contas em dia. Em diversas renegociações, inadimplentes receberam descontos agressivos, em alguns casos próximos de 90% sobre os encargos da dívida original. Enquanto isso, quem vendeu bens, cortou despesas e abriu mão do próprio consumo para honrar compromissos não recebeu benefício algum. A mensagem implícita preocupa especialistas: esperar o próximo programa pode parecer mais vantajoso do que pagar corretamente.
As críticas aumentam ainda mais quando entram em cena os recursos do FGTS. Entidades do setor produtivo, como a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias, alertam que utilizar dinheiro do Fundo de Garantia para quitar dívidas de consumo pode gerar consequências de longo prazo. O FGTS não é apenas uma reserva do trabalhador; ele também sustenta parte importante do financiamento imobiliário e da construção civil, setor que movimenta empregos e investimentos. Retirar recursos dessa engrenagem para aliviar consumo imediato pode significar menos crédito habitacional e menor atividade econômica no futuro.
O temor de especialistas é que o programa esteja apenas reorganizando temporariamente o problema. O próprio Idec alerta para o risco de reincidência, especialmente pela ausência de mecanismos robustos de educação financeira e transparência sobre o custo real do crédito. Sem mudanças estruturais, o ciclo tende a se repetir: o cidadão renegocia hoje, volta a usar crédito caro amanhã e reaparece inadimplente depois.
Existe ainda a questão fiscal, raramente destacada nas propagandas oficiais. Parte do risco das renegociações é coberta pelo Fundo Garantidor de Operações, o FGO. Isso significa que, se houver nova onda de inadimplência, o prejuízo pode acabar sendo absorvido pelo setor público — ou seja, pelo contribuinte. O governo aparece como salvador no presente, mas a conta pode reaparecer mais adiante na forma de mais pressão fiscal, inflação, aumento de impostos ou expansão da dívida pública.

Para analistas econômicos e críticos do programa, o Desenrola se parece cada vez mais com um remédio que reduz momentaneamente a dor sem tratar a enfermidade. Os sintomas desaparecem das estatísticas por algum tempo, mas a estrutura permanece intacta: juros abusivos, concentração bancária, perda de renda e dependência crescente do crédito para sobrevivência cotidiana.
O resultado previsível é a necessidade de novas versões do mesmo programa no futuro. E talvez esse seja justamente o ponto mais preocupante: quando políticas emergenciais deixam de ser exceção e passam a funcionar como rotina, o país deixa de resolver problemas e passa apenas a administrá-los politicamente.



