
Nem mesmo o Comitê de Política Monetária do Banco Central parece comprar a narrativa otimista do governo sobre a suposta desaceleração da inflação. Em decisão unânime, o Copom manteve a taxa Selic em 15% ao ano, confirmando a expectativa do mercado e reforçando o diagnóstico de que o cenário econômico segue marcado por incerteza e desconfiança.
O BC não deu qualquer sinal de quando poderá começar a cortar os juros. Pelo contrário: repetiu o alerta de que o ambiente atual exige cautela e que a estratégia da autoridade monetária é manter a Selic elevada por um “período bastante prolongado”. No comunicado, o comitê reiterou que seguirá vigilante e que não hesitará em retomar o ciclo de altas caso considere necessário para levar a inflação à meta.
A Selic é a taxa usada como referência nas negociações de títulos públicos e influencia todas as demais taxas praticadas no país. Em uma economia fragilizada, juros elevados funcionam como um atrativo para quem financia a dívida pública. O governo, diante de um risco crescente de calote, precisa oferecer remuneração igualmente alta aos investidores. O resultado é um mecanismo que na prática lembra uma agiotagem legalizada: quanto maior a desconfiança, maior o prêmio exigido por quem empresta.
No fim da linha, quem paga a conta é sempre o cidadão comum. Com a Selic nas alturas, o custo da dívida pública aumenta e engole o espaço fiscal que poderia ser destinado a serviços essenciais como saúde, educação, segurança, infraestrutura e políticas sociais. A cada alta ou manutenção prolongada dos juros, mais difícil se torna para o Estado investir no que realmente importa.

Esta é a quarta reunião consecutiva em que o Copom mantém a taxa básica, que permanece no maior patamar desde julho de 2006, quando estava em 15,25% ao ano. A Selic alcançou os atuais 15% em junho e não saiu mais desse nível.
O Banco Central utiliza a Selic para controlar a inflação oficial, medida pelo IPCA — índice que, segundo o governo, estaria desacelerando, embora o consumidor continue percebendo preços mais altos no supermercado, no transporte e nas contas básicas. No Relatório de Política Monetária divulgado no fim de setembro, o BC reduziu sua projeção de inflação para 2025 para 4,8%, número que já deve ser revisto diante da pressão do dólar e da persistência inflacionária. A atualização será apresentada no fim de dezembro.
Juros altos ajudam a conter a inflação porque encarecem o crédito e desestimulam o consumo e a produção. Mas o remédio tem efeitos colaterais importantes: freia o crescimento econômico e limita a capacidade das empresas de investir. Tanto que o próprio BC reduziu a projeção de crescimento para 2025, de 2,1% para pífios 2%.
Para iniciar um ciclo de cortes, o Banco Central precisa enxergar sinais claros de que a inflação está realmente sob controle, algo que, pelos indicadores e pelo comportamento dos preços, ainda está longe de acontecer. Enquanto isso, o país segue travado em um juro alto que alivia a estatística, mas pesa cada vez mais no bolso e no futuro do brasileiro enquanto o governo gasta adoidado e sem qualquer critério.


