*Marcos Machado

“A arte é o único registro de nossa passagem pela Terra”. A frase, dita pelo personagem Philippe, interpretado por François Cluzet no filme Intocáveis (2011), reverbera não apenas no contexto da narrativa, mas no debate contemporâneo sobre expressão e ensino artístico. Na cena, Philippe, um milionário tetraplégico e profundamente conectado com a arte, contempla por longos minutos um quadro abstrato em uma galeria. Ao seu lado está Driss, papel interpretado por Omar Sy, que reage com o estranhamento típico de quem não foi treinado para decodificar o “inexplicável” no discurso da arte moderna. Diante de uma grande mancha vermelha sobre o branco, Driss reduz a obra à ironia: “O sujeito espirrou sangue do nariz”. O contraste é tão honesto quanto revelador: enquanto um percebe profundidade, o outro vê apenas aleatoriedade e, ainda assim, ambos estão certos dentro de seus próprios olhares.
Em um momento em que a escola é regida por métricas, relatórios e padrões, o ensino da arte parece ocupar um espaço cada vez mais comprimido. Afinal, como mensurar a subjetividade? Como corrigir aquilo que nasce do sentimento e não da técnica?
Um episódio recente ilustra esse dilema: uma mãe relatou que a professora de arte insistia para que o filho ajustasse o trabalho, reforçando contrastes, alterando cores, corrigindo traços. À primeira vista, pode parecer apenas zelo pedagógico, mas revela uma tensão essencial: até que ponto o ensino da arte pode intervir na expressão íntima do aluno?
A arte, por definição, é manifestação individual. Não há manual do belo, régua do certo ou cartilha do proporcional. Se Picasso tivesse seguido à risca as orientações acadêmicas de composição, talvez “Guernica” não tivesse se tornado o grito pictórico contra a barbárie que atravessou o século. Se Di Cavalcanti tivesse sido convencido a “moderar” suas cores tropicais, muito da identidade visual brasileira teria sido silenciada. A arte nasce do desacordo, da ruptura, da ousadia. Impor-lhe molduras rígidas é, no mínimo, uma contradição em termos.
Isso não significa, evidentemente, que o ensino da arte não tenha papel formativo. Ao contrário: conhecer técnicas, movimentos, referências e contextos amplia a compreensão estética e enriquece o repertório do estudante. O problema não é ensinar arte, mas transformá-la em um campo de julgamento, como se a sala de aula devesse reproduzir o ambiente de um júri estético. O professor não é fiscal do “bom gosto”, mas mediador entre técnica e sensibilidade; alguém que abre portas, não que fecha caminhos.
Quando o professor exige que o aluno “corrija” uma obra simplesmente porque ela não se encaixa em determinado padrão cromático, de proporção ou perspectiva, deixa de ensinar arte para ensinar conformidade. O que se produz daí não é criatividade, mas obediência. A arte, por natureza, provoca, tensiona, questiona e desestabiliza. Torná-la domesticada é também domesticar o aluno; e formar operadores de fórmulas, não autores de ideias.

A educação artística deveria ensinar, antes de tudo, a olhar. A enxergar o mundo, o outro e a si. Ensinar que há beleza no erro, intenção no desvio, sentido na deformidade. O traço torto, a cor “equivocada”, o desenho que se recusa a caber no contorno, tudo isso pode ser, justamente, a assinatura da autenticidade. Corrigir essas marcas pode significar o apagar o sujeito que tenta se expressar.
O ensino da arte se justifica, e é indispensável, quando promove repertório, reflexão e liberdade, mas deixa de ser arte quando se converte em doutrina estética, quando transforma a expressão em produto padronizado. A função da escola não é delimitar molduras: é expandir horizontes porque a verdadeira arte não é ensinada, é despertada.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade


