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sexta-feira, junho 5, 2026

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O abandono visível do ensino invisível

A recente greve dos professores em Brasília-DF, escancarou a situação de penúria do setor. Enquanto discursos políticos exaltam a importância da educação pública como pilar do desenvolvimento nacional, a realidade vivida por milhares de estudantes nas escolas públicas de Brasília-DF revela um cenário de precariedade alarmante. Salas abafadas, carteiras quebradas, banheiros insalubres, ausência de material didático básico e, não raro, ausência de professores. A promessa de uma escola pública de qualidade tem se tornado um enunciado vazio, enterrado sob o peso do descaso estrutural e da politização dos cargos de direção.

Em muitas escolas do ensino fundamental e médio, as instalações beiram o insalubre. Os prédios, construídos há décadas, jamais passaram por reformas estruturais. Salas com infiltrações, rachaduras, janelas improvisadas com papelão e ventiladores que não funcionam são parte da rotina. Em regiões periféricas de Brasília, o cenário se repete: carteiras velhas, desajustadas, forçam alunos a passarem horas em posições incorretas, gerando dores constantes e problemas posturais que, em muitos casos, evoluem para lesões na coluna.

Profissionais da saúde já alertam para o impacto físico de mobiliário inadequado. “Temos recebido adolescentes com desvios de coluna e dores recorrentes por causa das condições nas salas de aula. É uma tragédia silenciosa”, afirma a fisioterapeuta Fernanda Lima, que atende alunos da rede pública em Brasília.

Se os móveis são impróprios, o que dizer da estrutura pedagógica? Livros didáticos chegam com atraso ou nem chegam. Em diversas escolas, faltam materiais básicos como papel sulfite, tinta para impressoras, pincéis para quadro branco ou até papel higiênico. Professores relatam ter que comprar, do próprio bolso, os recursos mínimos para manter a aula funcionando. “A gente improvisa como pode. Tem dia que não tem marcador. Tem semana que não tem papel. E quando pedimos à direção, ouvimos que o orçamento ainda não foi liberado”, relata uma professora, que preferiu não se identificar.

O problema, contudo, não se limita à infraestrutura ou à escassez de recursos. A nomeação de diretores e coordenadores escolares segue um padrão viciado: o critério técnico dá lugar à filiação política. Cargos de chefia são frequentemente ocupados por pessoas sem experiência em gestão escolar ou formação pedagógica sólida, escolhidas não por mérito ou competência, mas por apadrinhamento partidário. O resultado é desastroso: decisões administrativas erráticas, projetos pedagógicos inconsistentes e um ambiente escolar pautado mais por vaidades políticas do que por metas educacionais.

A politização da gestão compromete também o clima institucional. Professores e servidores relatam perseguições e retaliações por divergências ideológicas ou posicionamentos críticos. “Em vez de pedagogos, temos militantes coordenando escolas. As decisões são tomadas com base em afinidades políticas, e não no que é melhor para os alunos. Isso destrói o ambiente”, desabafa um diretor aposentado.

Diante desse panorama, o desempenho dos estudantes sofre. Avaliações nacionais, como o Saeb, mostram defasagens cada vez mais graves em leitura, escrita e matemática. A evasão escolar cresce, especialmente no ensino médio, impulsionada por um sistema que parece empurrar o aluno para fora, em vez de acolhê-lo.

A escola pública, que deveria ser o espaço de transformação e inclusão, se tornou símbolo de exclusão. Não apenas pela precariedade física e material, mas pela ausência de um projeto real de valorização do ensino. Enquanto as verbas são mal distribuídas, os cargos são loteados e os recursos se perdem na burocracia, alunos aprendem a conviver com o mínimo e, muitas vezes, com nada.

Recuperar a escola pública exige mais que promessas e slogans. É preciso investir na infraestrutura com planejamento, adotar critérios técnicos e transparentes para a nomeação de gestores, garantir material didático em tempo e valorizar os profissionais da educação. Mas, acima de tudo, é necessário reconhecer que o que está em jogo não é apenas a estrutura de uma instituição, mas o futuro de cidadãos.

Não existe sociedade desenvolvida com escolas em ruínas, e não há democracia possível sem uma educação pública forte, digna, livre da corrupção estrutural e da captura ideológica. Onde há desprezo pela escola, há projeto de mediocridade e, onde reina a mediocridade, a ignorância ocupa o poder.

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