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quinta-feira, setembro 10, 2026

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Fé, razão e acaso, ou pura sorte

Marcos Machado

Em algum momento da vida, todos nós já atribuímos um sucesso inesperado, ou um desastre repentino, à sorte. Seja no bilhete premiado da loteria, na entrevista de emprego que “caiu do céu”, ou naquele tropeço que evitou um acidente, a ideia de que forças invisíveis interferem em nossos destinos está enraizada na cultura popular. Será que sorte existe mesmo, ou estamos apenas tentando dar sentido ao acaso? A resposta varia conforme a lente pela qual se observa: a da filosofia, da ciência, da religião, ou da superstição.

No campo científico, sorte é um termo informal para descrever eventos improváveis que ocorrem dentro do reino das probabilidades. Richard Wiseman, psicólogo britânico e autor do livro The Luck Factor, conduziu pesquisas com pessoas que se consideravam sortudas e azaradas. O que ele descobriu foi surpreendente: indivíduos que se julgavam sortudos tendiam a ser mais atentos ao ambiente, mais sociáveis e mais abertos a novas experiências. “A sorte”, diz Wiseman, “não está nas estrelas, mas na atitude”.

Em termos estatísticos, tudo o que é raro pode parecer “sortudo” quando acontece. Ganhar na loteria, por exemplo, tem chances mínimas, mas não impossíveis. A coincidência, portanto, é o ponto de encontro entre a aleatoriedade e a interpretação humana.

A filosofia também não se exime do debate. Para os estóicos, como Sêneca e Marco Aurélio, a sorte é uma ilusão gerada pela ignorância das causas reais. Tudo o que acontece está em conformidade com o logos, a razão universal. A única coisa que está sob o controle humano é a reação aos eventos, e não os eventos em si. “A sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade”, escreveu Sêneca, deixando claro que mérito e acaso não se excluem, mas se encontram.

Aristóteles, por sua vez, admitia a existência do acaso (tyche), mas como um tipo de causa acidental e marginal. Já Nietzsche rejeitava o conceito por completo: quem precisa da sorte é quem não tem força para afirmar a vida como ela é.

No campo da fé, a sorte quase sempre é subordinada à vontade divina. Na Bíblia, a prática de lançar sortes (como dados) era comum, mas não como jogo de azar: era uma forma de discernir a vontade de Deus. “A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda a decisão” (Provérbios 16:33). A ideia central é que nada acontece por acaso.

O Islã ecoa esse pensamento com a expressão Inshallah — “se Deus quiser”. Todos os acontecimentos, bons ou ruins, são expressão da vontade de Alá. No Hinduísmo e no Budismo o conceito de sorte é substituído pelo de karma: o que se colhe é resultado direto do que se plantou, nesta ou em outras vidas.

Na cultura popular, a sorte ganha formas e símbolos: ferraduras penduradas atrás da porta, trevos de quatro folhas, olhos gregos, números mágicos. Cada cultura cria seus próprios códigos para tentar domar o imprevisível. Mesmo em tempos de ciência e racionalismo, muitos ainda batem na madeira “para garantir”.

Entre a crença e a razão, a sorte continua a ser uma espécie de espelho refletindo nossas esperanças, medos e necessidade de controle. A ciência nos diz que é tudo aleatório. A religião afirma que tudo tem propósito. A filosofia nos desafia a sermos protagonistas, e não espectadores, dos próprios acontecimentos.

Talvez, no fim das contas, sorte seja menos um dado lançado ao vento e mais uma combinação de preparo, atenção e disposição para agir quando a oportunidade bate à porta.

Você vai esperar pela sorte ou vai criar a sua?

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira

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