Marcos Machado

Nunca foi tão fácil sentar em um trono, ainda que de ilusão, quanto na era das redes sociais. O que antes exigia pedigree, espada, castelo e ao menos um ou dois súditos crédulos, hoje se alcança com um clique, um grupo de WhatsApp e a coragem típica de quem nunca arriscaria levantar a voz na vida real. É o triunfo do micro poder, esse curioso e persistente distúrbio da mente míope que, aliás, acompanha a humanidade desde tempos imemoriais.
Antes de prosseguir, vou esclarecer: não, este artigo não é uma direta, nem indireta para você, ou para qualquer outra pessoa, principalmente se for “administrador” de algum grupo. É apenas uma reflexão, uma análise psiquicanalítica de comportamento social contemporâneo e argumentação circunstancial. A análise é genérica, não pessoal. Se se sentir ofendido ou magoado, sinto muito, mas a carapuça se encaixar perfeitamente é só da responsabilidade de quem a veste.
Pois, então, se Sigmund Freud vivesse para ver certos grupos, certamente acrescentaria um apêndice à sua teoria do narcisismo das pequenas diferenças. Carl Jung, por sua vez, identificaria em alguns administradores de grupos a manifestação perfeita da sombra: aquele lado escondido, reprimido, tímido, que só aparece quando mergulhado no anonimato ou no pequeno conforto do “remover participante”. Outros pensadores, de filósofos clássicos a analistas contemporâneos, concordam em um ponto: o ser humano tem talento para transformar qualquer espaço em palco para seus delírios de autoridade.
A popularização do termo “pequenos tiranos” ganhou fôlego após declarações infelizes de autoridades brasileiras, mas a ideia é mais antiga que a própria internet e eu vou preferir usar o termo ‘ditador’, que dá no mesmo, mas desvincula a ideia de ser ideia de certa autoridade.
O ditador doméstico, aquele sujeito ignorado pela família e subestimado no trabalho, sempre procurou uma válvula de escape. Como todo organismo encontra um meio de sobreviver, a ascensão da era digital ofereceu o habitat perfeito: os grupos heterogêneos de redes sociais.

Nesses ambientes, o sujeito que nunca comandou nem a escalação do churrasco da família finalmente reina. Seu califado é microscópico, mas profundamente significativo para ele. Ali, entre memes, correntes motivacionais e debates inúteis sobre política, ele impõe regras sem sentido; e quanto mais sem sentido, melhor.
É a forma de deixar claro que está no comando. “Proibido postar depois das 22h”; “links só com autorização”; “mensagens de áudio acima de 30 segundos serão apagadas”; “quem reclamar será removido”. “Se postar mais de duas figurinhas por vez, será excluído”.
É a democracia relativa. É o absolutismo de bolso.
Esses pequenos ditadores, claro, não percebem que seu império é feito de ilusão, sustentado por pessoas que sequer lembrariam seu nome fora dali. Mas isso pouco importa: para espíritos vazios, qualquer território serve de reino; para egos feridos, qualquer ato de poder basta.
Assim, a internet, esse laboratório caótico da sociedade informacional, continua abrindo portas e janelas, e portões, para tudo e para nada. Produz conhecimento, mas também alimenta vaidades frágeis. Aproxima pessoas, mas também multiplica opinadores sem repertório e administradores de autoridade imaginária. O que é, afinal, a tecnologia senão o espelho mais fiel da alma humana?
Entre Freud, Jung e os novos filósofos das redes sociais, permanece a constatação: o ser humano, quando colocado diante de um botão de “remover membro”, revela muito mais sobre si do que qualquer teste psicológico poderia revelar.


