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quinta-feira, abril 30, 2026

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Telas produzem geração de analfabetos funcionais

Marcos Machado

Pesquisas cada vez mais robustas apontam que a exposição excessiva de crianças e adolescentes às telas (celulares, tablets, computadores e tevês) está cobrando um preço alto: a deterioração da capacidade de aprender, de se concentrar e, sobretudo, de dominar a linguagem e desenvolver o raciocínio.

Um estudo conduzido pela Universidade de Alberta, no Canadá, mostra que crianças de oito a 11 anos de idade que passam mais de duas horas por dia em frente a dispositivos digitais apresentam desempenho significativamente pior em testes cognitivos de linguagem e memória. O impacto é ainda mais severo quando se soma à redução de horas de sono e à ausência de atividades físicas, fatores igualmente influenciados pelo uso abusivo da tecnologia.

Você sabia que quase 20% dos bacharéis em atividade no País são analfabetos funcionais?

Pesquisadores da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, utilizaram exames de neuroimagem para observar alterações estruturais no cérebro de crianças submetidas a longos períodos de exposição a telas. Os resultados indicam que áreas responsáveis pela compreensão da linguagem, leitura e foco sofrem alterações visíveis, prejudicando o desenvolvimento neurológico pleno.

Na prática, o que se vê nas salas de aula é uma geração cada vez menos capaz de compreender um texto simples, organizar ideias ou escrever uma frase coerente. A linguagem, base do pensamento e da convivência, vem sendo sacrificada em nome da instantaneidade. Os alunos já não leem textos longos, não interpretam instruções básicas e muitos se perdem diante de um parágrafo com vocabulário um pouco mais sofisticado.

O fenômeno vai além da gramática. A capacidade de argumentar, de ouvir com atenção, de formular raciocínios lógicos está diretamente ligada à linguagem e quando essa linguagem é atrofiada por uma dieta diária de vídeos curtos, memes e abreviações, o pensamento também se empobrece. Não é apenas a escrita que definha, é o próprio cérebro que se reconfigura para o superficial.

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que crianças de até dois anos não sejam expostas a telas, e que o tempo diário não ultrapasse uma hora, de dois e aos cinco anos de idade. Na prática, porém, os números são alarmantes: segundo o IBGE, mais de 80% das crianças brasileiras de dez a 13 anos usam celular com acesso à internet diariamente, muitas delas sem qualquer supervisão ou limite de tempo.

Você sabia que 80% dos formandos em busca de estágio terão seus currículos jogados no lixo sem qualquer chance de serem chamados para a entrevista?

A consequência disso é visível: alunos que chegam ao final do ensino médio com graves dificuldades de leitura, interpretação e escrita e isso não apenas compromete o desempenho acadêmico, mas também mina as chances de inserção social e profissional.

O modelo de educação e o papel das tecnologias no cotidiano infantil precisam ser repensados. As telas, embora ferramentas poderosas, não substituem a leitura atenta e o desenvolvimento de habilidades cognitivas profundas. O que está em jogo não é apenas o desempenho escolar, é a formação intelectual e linguística de toda uma geração.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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