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sábado, abril 4, 2026

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Propaganda oficial ou autopromoção?

Marcos Machado

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A utilização da comunicação estatal para exaltar governantes e construir narrativas favoráveis ao poder é um fenômeno muito mais antigo do que a imprensa moderna. Séculos antes da existência de jornais, televisão ou redes sociais, líderes políticos já compreendiam que controlar a forma como seus feitos eram divulgados podia fortalecer sua autoridade e moldar a percepção pública.

O que hoje recebe nomes como “publicidade institucional”, “campanhas informativas” ou “comunicação governamental” tem raízes profundas na história. Em essência, trata-se de uma prática recorrente: o próprio poder narrando suas realizações, quase sempre sob uma perspectiva cuidadosamente favorável.

Um dos exemplos mais antigos e bem documentados desse mecanismo remonta ao Egito antigo, durante o reinado do faraó Amenhotep III, também conhecido como Amenófis III. Ele governou de 1391 a 1353 a.C., no auge do chamado Império Novo egípcio, período marcado por prosperidade econômica, estabilidade política e intensa atividade diplomática.

Durante seu reinado, Amenhotep III transformou um objeto religioso tradicional em um instrumento sofisticado de comunicação política: o escaravelho.

Na cultura egípcia, o escaravelho era um amuleto associado ao deus solar Khepri. Pequenas peças com a forma do inseto eram utilizadas como talismãs pessoais ou colocadas em contextos funerários, simbolizando renovação e renascimento.

O faraó, porém, decidiu ampliar o significado do objeto. Em vez dos pequenos amuletos tradicionais, ordenou a produção de escaravelhos comemorativos maiores, com cerca de sete a 11 centímetros de comprimento. As peças eram feitas de esteatita — conhecida como pedra-sabão — e posteriormente vidradas, o que lhes dava aparência refinada e maior durabilidade.

A principal inovação estava na base plana do objeto. Ali eram gravadas longas inscrições em hieróglifos relatando acontecimentos considerados importantes durante o reinado.

Esses escaravelhos funcionavam como comunicados oficiais permanentes — uma espécie de boletim governamental gravado em pedra.

Diferentemente dos amuletos comuns, esses escaravelhos não eram produzidos para uso popular. Eles eram distribuídos de forma seletiva.

Alguns eram enviados como presentes diplomáticos a governantes estrangeiros em regiões como Síria, Babilônia e o reino de Mitanni. Outros eram entregues a altos funcionários da administração egípcia ou a membros das elites locais espalhadas pelo Egito e pela Núbia.

A estratégia tinha um objetivo claro: comunicar diretamente às elites políticas quais eventos deveriam ser lembrados, celebrados e reconhecidos como feitos importantes do reinado.

Narrativas de poder

O conteúdo das inscrições revela as prioridades da propaganda real.

Um dos escaravelhos anuncia o casamento do faraó com a rainha Tiye. O texto faz questão de enfatizar que ela havia sido elevada à condição de Grande Esposa Real, apesar de não pertencer originalmente à família real — um detalhe para legitimar politicamente a união.

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Outro objeto relata que o faraó teria abatido 102 leões ferozes durante os primeiros dez anos de seu governo. A mensagem, provavelmente amplificada, tinha função simbólica: apresentar o soberano como um governante forte, capaz de dominar a natureza e proteger o reino.

Há também inscrições celebrando a captura de touros selvagens durante o segundo ano do reinado, outra demonstração de vigor e autoridade.

Um dos escaravelhos descreve a construção de um grande lago recreativo para a rainha Tiye, supostamente escavado em apenas quinze dias. A narrativa sugere uma impressionante capacidade administrativa do governante, capaz de mobilizar trabalhadores e recursos em larga escala.

Outro registro menciona a chegada da princesa Gilukhipa, enviada ao Egito pelo reino de Mitanni como parte de um acordo diplomático. A mensagem reforçava o prestígio internacional do faraó e o sucesso de sua política externa.

Comunicação política

Arqueólogos já encontraram mais de duzentos desses escaravelhos comemorativos espalhados por uma vasta área que vai da atual Síria até o Sudão. A dispersão geográfica indica que não se tratava de objetos isolados, mas de uma estratégia deliberada de comunicação política.

Amenhotep III compreendeu algo que governantes de todas as épocas também entenderiam: controlar a narrativa é uma forma de exercer poder.

Naquele período não existia imprensa capaz de confrontar ou verificar a versão oficial dos acontecimentos. Não havia investigação independente, repórteres ou pluralidade de fontes. A história era registrada literalmente na pedra — e sob ordem direta do governante.

Essa realidade evidencia a diferença fundamental entre propaganda oficial e jornalismo.

A propaganda parte de uma única fonte: o próprio poder. Seu objetivo é promover, justificar ou exaltar ações governamentais. Não há investigação independente nem confronto de versões.

O jornalismo surgiu historicamente com a função de fiscalizar o poder, investigar informações e oferecer ao público múltiplas perspectivas sobre os fatos.

O problema aparece quando veículos de comunicação passam a reproduzir mensagens produzidas pelo governo sem questionamento ou verificação. Nesse momento, a imprensa deixa de atuar como mediadora crítica da informação pública e se aproxima da função que os escaravelhos de Amenhotep III desempenhavam há mais de três mil anos.

A diferença é que, enquanto os escaravelhos egípcios eram claramente objetos de propaganda real, a propaganda contemporânea muitas vezes circula sob a aparência de notícia, serviço público ou informação institucional.

Mudam os meios, evoluem as tecnologias e se multiplicam os canais de comunicação. Ainda assim, a lógica permanece surpreendentemente familiar: governantes continuam interessados em narrar seus próprios feitos, nem sempre verdadeiros — e em garantir que essa narrativa alcance o maior público possível.

E qualquer semelhança não é mera coincidência.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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